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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Sobre pizzas e um bookmaker chinês



São 20h. Meu estômago ronca e resolvo jantar. Vou até a padaria perto do serviço fazer o ritual dos dias úteis. O garçom vem até a mim com um cardápio, mas hoje é desnecessário. Peço um contrafilé acebolado com fritas, já que na hora do almoço resolvi tirar um cochilo ao invés de comer, e um chá gelado de limão com um copo repleto de gelo e uma rodela do fruto. Fico no aguardo. É o tempo em que observo as mesas ao meu lado. Minha mãe me ensinou que é feio olhar os outros clientes de um restaurante, mas é irresistível – inclusive porque tenho a péssima mania de achar semelhanças entre rostos de populares e famosos. É um negócio difícil de controlar, mas um exercício maravilhoso para a memória.  Observo a mesa no meu lado direito e há um sujeito que é a cara do ator Ariel Coelho, antigo coadjuvante de filmes do Ivan Cardoso, programas do Chico Anysio e novelas da Rede Manchete. Ele já está morto algum tempo, mas o sujeito sorri e penso: “É o cara”. Logo ele vai embora, com sua mulher e filho, mas eu mal podia imaginar o que ocorreria na sequência. 

Adoro os filmes de John Cassavetes, principalmente os que contam com a participação de Ben Gazzara, um dos ícones da geração Actor’s Studio.  Para quem não se lembra dele, ele é o Jackie Treehorn de O Grande Lebowski ou o Marcelo nova-iorquino e durão de Forever, do nosso Walter Hugo Khouri.  Gazzara também interpretou Bukowski no ótimo Crônica de um Amor Louco. Mas o grande filme do cara, pelo menos para mim, é  A Morte de um Bookmaker Chinês, do Cassavetes. Eis que, do nada, uma visão começa a me atordoar. Um homem, justamente a cara do Ben Gazzara entra na padaria acompanhado de duas moças já idosas, mas aparentemente ótimas para a idade. Elas estão vestidas como se voltassem de um baile, enquanto “Gazzara” veste um short dos New York Jets e uma camiseta básica.  Foi como ver uma cena do filme, mas passada 42 anos depois, com todos eles envelhecidos. Faltava uma garota, mas quem já assistiu A Morte de um Bookmaker Chinês irá entender. Eles sentam a mesa, passam os olhos pelo cardápio e, como raramente os clientes dessa padaria que eu vou fazem, pedem uma pizza de oito pedaços. O sabor escolhido, para o meu espanto, é a siciliana. Será que há alguma conexão com a máfia na escolha? Talvez.  Vou comendo o meu jantar e fazendo algo absolutamente errado, que é ficar de gaiato, só ouvindo a conversa dos outros. Eles falam sobre bailes, dança. Começo a achar que ele é realmente Cosmo Vittelli, o dono de um cabaré de Los Angeles interpretado por Ben Gazzara, um lugar onde muitas garotas dançam e tiram a roupa.  Descubro que a dama de cabelo claro é sua namorada e que ela não frequenta o apartamento dele por conta das visitas constantes da filha de Cosmo.  Hoje ele não quis beber e optou por um Guaraná Diet. Conheceu os prazeres da típica fruta tropical de nossa terra. Ele fala para a amiga que o acompanha, uma senhora de uns 70 anos e cabelos negros, do dia que saiu com a namorada para comer yakisoba. Desconfio que ele só esteja camuflando sobre a história que ocorreu com o bookmaker chinês. 

Peço um café e fico observando mais um pouco, mas os últimos minutos da minha hora de janta estão acabando e preciso voltar para o trabalho. Saio da mesa e não resisto, dou a última olhada para aquela cena de John Cassavetes diante dos meus olhos, incluindo o super closes do diretor.  Pago a minha conta e acendo um cigarro com uma única certeza: às vezes é divertido deixar a vida mais estranha que a ficção. Sobre o que aconteceu ao bookmaker chinês? É melhor deixar pra lá.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Então é natal


Estou na padaria perto do trabalho, local onde sempre janto ou petisco um pedaço de pizza. Hoje consegui lugar mais próximo a parede, então não consigo ver a TV. Ao fundo, rola uma versão de "Então é natal" na voz de Vavá, do Karametade (lembra deles?). Só por isso, a comida, que está ótima, já não desce tão bem. Mas antes desta versão em ritmo de pagode, uma outra pior e cantada pelo KLB - aquele grupo que sem sucesso tentava copiar as harmonias dos irmãos Gibb - ecoava pelo local. Para se tornar uma experiência ainda mais indigesta e deprimente, um coral de crianças entoando também "Então é Natal" estoura dos falantes. É o verdadeiro horror. Uma vontade de fugir, chutar o rabo do Papai Noel e do responsável pela gravação desse MP3 infernal resume tudo. Surge a pergunta se devo ou não pagar a conta após essa sessão de tortura. Poderia dar um golpe, não sei. Eis que talvez o espírito natalino toma conta da minha mente e corpo. Resolvo pagar pela experiência agoniante, já que do caixa ouço tocar Chubby Checker. Acho que é o Papai Noel me recompensando por toda a tristeza causada após a terceira execução do hino natalino. Como diria John Lennon ou Simone, então é Natal e não há nada que a gente possa fazer para fugir do clima mercantil e tenebroso desta época. Nem adianta subir pela chaminé e cutucar Papai Noel com um cabo de vassoura, afinal, com essa crise política que está aí, acho difícil o "Bom Velhinho" aparecer por aqui.

PRA EXORCIZAR TODOS OS MALES DE 2016 - VOL. 1

2016 já é, sem dúvida alguma, um dos anos mais escabrosos de nossa muitas vezes patética existência humana. Crises políticas, econômicas, genocídio, terrorismo, golpes políticos, anúncio de reformas nas áreas previdenciária e trabalhista, corrupção, fascismo, chacinas, desinformação, surpresas retrógradas e um grande receio do que estar por vir estamparam diariamente páginas e mais páginas de jornais, gerando grandes questionamentos e incertezas sobre o nosso futuro. Será essa a hora de fazer como o refrão dessa canção e pedir para o Sr. Homem do Espaço nos levar para um passeio por outras bandas intergaláticas? Quem sabe 01 de janeiro não seja uma boa data pra isso.

*Esse som inspirou Raul Seixas e sua "S.O.S."

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Apesar do tempo claro, 100% de chances de chover

Renato Gizzi
Foto tirada por Renato Gizzi

Desde o resultado das urnas, João Doria Jr. vem mostrando que não é um político, mas um gestor - e dos piores. Durante a campanha, talvez por um erro de cálculo (ou seria picaretagem á lá velha política?), fez a promessa de não aumentar a tarifa dos ônibus e, como podemos acompanhar nos últimos noticiários, mesmo aqueles que blindam o "neo" tucano, era apenas uma falácia. Em sua equipe de governo, conseguiu reunir uma boa turma de condenados ou réus na justiça. Só galera do bem. Agora, "Little John" vem com a ideia de transferir a Virada Cultural, o único patrimônio concreto deixado pelas péssimas gestões de José Serra e Gilberto Kassab, para o Autódromo de Interlagos, local que não é de fácil acesso como a região central de São Paulo. No mesmo dia em que apresenta essa decisão equivocada, ainda diz que a cidade que comandará é um lixo. Fico pensando o que o eleitorado viu nele. Houve um pensamento coletivo sobre uma possível distribuição em massa de máquinas de café expresso, assim como fazia em seu programa, ou é apenas mais um milagre do "Santo" Alckmin? Enquanto isso, Fernando Haddad, o responsável por trazer a maior megalópole da América Latina ao Séc. XXI,  laureado pelas políticas visionárias de seu mandato e um dos poucos a deixar a cidade com grana no caixa, faz uma melancólica despedida. Me parece que  apesar do tempo claro e seco, há ventos de uma tempestade longeva no ar. É melhor procurar abrigo e se proteger.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

VERSOS FINOS COMO TRAÇOS DE CHUVA




É preciso condenar
severamente quem 
crê nos bons sentimentos
e na inocência.


É preciso condenar
com a máxima severidade quem
ama o subproletariado
sem consciência de classe.


É preciso condenar
com a máxima severidade
quem ouve em si e expressa
sentimentos obscuros e escandalosos.


Estas palavras de condenação
começaram a ressoar
no coração dos Anos Cinquenta
e continuam até hoje.


Entretanto a inocência,
que efetivamente havia,
começou a perder-se
em abjuras, corrupções e neuroses.


Entretanto o subproletariado,
que efetivamente existia,
terminou se transformando
em reserva da pequena burguesia.


Entretanto os sentimentos
que eram por natureza obscuros
foram todos investidos
no lamento das ocasiões perdidas.


Naturalmente, quem condenava
não se deu conta de tudo isso:
e continua rindo da inocência,
negligenciando o subproletariado


e declarando sentimentos reacionários.
Continua indo da casa
pro escritório, do escritório pra casa,
ou ensinando literatura:
está feliz com o progressismo
que lhe faz parecer sagrado
o dever de ensinar aos domésticos
o alfabeto das escolas burguesas.


Está feliz com o laicismo
que considera é mais que natural
que os pobres tenham casa,
carro e tudo mais.


Está feliz com a racionalidade
que o faz praticar um antifascismo
gratificante, elevado
e sobretudo muito popular.


Que tudo isso seja banal
nem lhe passa de longe pela mente:
com efeito, que seja assim ou assado
não lhe dá nenhum proveito.


Aqui fala um Sócrates mísero e impotente
que sabe pensar e não filosofar,
mas que no entanto se orgulha
não só de ser um conhecedor


(o mais exposto e esquecido)
das mudanças históricas, mas também
de nelas estar direta e
desesperadamente implicado.




(Pier Paolo Pasolini em La Nuova Gioventù, de 1975, o mesmo ano de sua trágica e até hoje misteriosa morte.)