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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Uma simples guinada do destino

Muitos diriam que em música de Bob Dylan não se mexe. Talvez estejam certos, mas Brian Ferry, o autor e interprete da clássica balada de motel brega-romântica "Slave to Love" e ex-vocalista da sensacional Roxy Music, revisitou algumas músicas de Dylan em seu " Dylanesque". Por incrível que pareça, no caso de Simple Twist Of Fate, Ferry conseguiu superar a versão original, dando um calor a mais para a canção - que é uma das mais simples e belas de Bob Dylan. Se não acredita nisso, escute nessa versão ao vivo maravilhosa (a letra está logo abaixo):




Sentaram-se os dois no parque um dia
Enquanto o céu da tarde escurecia,
Ela o olhou, e ele sentiu que o consumia
Uma chama - até os ossos.
Sentiu-se então só e com remorsos
Por ter cometido tanto desatino
E esperou por uma simples guinada do destino.

Caminharam ao longo de um velho canal
Um pouco confusos, eu bem me lembro
E pararam num hotel estranho com uma luz de neon a brilhar.
Ele sentiu o calor da noite atingi-lo como um trem de carga
Se movendo com uma simples guinada do destino.

Um saxofone ao longe, tocou
Enquanto ela, pela arcada, caminhou.
Enquanto a luz, por um candeeiro surrado, jorrou
Onde ele estava acordando,
Ela acabou então jogando uma moeda ao cego no portão
E esqueceu a guinada do destino, então.

Ele acordou, o quarto estava vazio
Ele a procurou, mas em lugar algum a viu.
Pensou que não se importava e abriu a janela de par em par,
Sentiu um vazio nuclear com o qual não podia se relacionar
Trazido por um simples, porém fatal guinar.

Agora só ouve relógios a tiquetaquear
E anda com um papagaio que sabe falar,
Persegue-a pelas docas - à beira mar
Onde marinheiros descem do convés.
Talvez ela o escolha uma outra vez. 
Mas, quanto tempo terá que esperar
Mais uma vez, para seu destino mudar?

As pessoas me dizem que é pecado
Saber e sentir de modo exagerado.
Que ela era minha alma gêmea, tenho acreditado, mas, perdi essa aliança e a era.
Ela nasceu na primavera, mas, eu nasci tarde demais
Culpem-se estas simples guinadas do destino.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Em movimento

 Glenn Hughes tem 62 anos, mas no palco e pessoalmente aparenta meros 50. O cara já passou por fases ruins, principalmente nos anos 80, quando se arrebentou por conta da cocaína - assunto que ele trata com naturalidade e até inspiração em canções. "Come Taste The Band", disco de sua época como baixista e vocalista do Deep Purple, está na minha lista dos cinco melhores álbuns de todos os tempos. Adoro o swing e a pegada funk dessa formação, que incluía Tommy Bolin na guitarra. Em agosto decidi levar minha edição do disco para ganhar um autógrafo, uma foto, algo do tipo. Já cansei de falar que detesto bajular artista, mas Hughes, além de ser um pioneiro na maneira de misturar o funk com rock'n'roll, é uma das maiores vozes desse planeta, além de ser o único cara das antigas que mantém a mesma voz, talvez até melhor. 

Cheguei nas dependências do Carioca Club, local da apresentação, antes das 14h e ainda tive que enfrentar os "revolucionários da CBF" no metrô. No meio da primeira cerveja, uma van chega e eu e meu companheiro de show, o grande Jorge, o Júnior, corremos de copo e tudo atrás. Era o baterista suíço (ou seria sueco?) do cara chegando. Já havia uns dois gatos pingados na porta e resolvemos ficar por lá. Descobrimos o hotel onde Glenn está hospedado e, por alguns minutos, pensamos ir lá, mas desistimos. Ele ia ter que passar na entrada dos músicos. Cerca de uma hora depois, outra van para e o titio Hughes desce, não dando nem tempo para preparar a câmera do celular. Consegui ser o primeiro cara a falar com ele, até mesmo quase tocá-lo, quando ofereci meu disco e uma caneta para o autógrafo. Bem nessa hora, um sujeito da organização da casa nos afastou e acelerou Glenn. Perdi a minha oportunidade, mas não me dei por vencido e continuei lá na porta. O batera saiu pra fumar duas vezes e trocou algumas ideias comigo e outros três fãs. Resolvi não tirar uma foto com o cara, já que nunca tinha o visto - logo me arrependeria da decisão. Aguardei mais um tempo, vi a coleção de discos de alguns fãs, conversei sobre outros shows e de quebra ouvi a passagem de som. Ia rolar um encontro pago e o roadie de Glenn Hughes era quem buscava esses caras, cerca de seis. Tentei dar uma migué, quase funcionou, mas não consegui entrar. Resolvi tomar umas cervejas e comer algo, além de ver a última rodada do Brasileiro. Volto pra fila e descubro que Doug Aldrich saiu pra tomar um ar e tirou algumas fotos com os fãs. Apesar de ele ter tocado com lendas como Ronnie James Dio e David Coverdale, seu estilo de tocar nunca me agradou e eu já tinha cumprimentado o cara em sua chegada ao Carioca. Entro no local do show, já pego um lugarzinho perto do palco e eu e Jorge começamos conversar com pai, mãe e filho que estavam vendo o show. Vinham de Pirituba e tinham verdadeiro amor ao rock'n'roll. O show começa pontualmente ás 20h30 e Glenn, com seus 62 anos, é um verdadeiro menino, se movimento e rasgando o verbo em Stormbringer. Uma energia emana do palco e vi tiozões barbados hipnotizados com a perfeição vocal de Hughes. Mais algumas músicas e vem Sail Away, presente no clássico"Burn". A casa vai abaixo, canta junto e se emociona, talvez pela letra poética ou até mesmo por sua rara execução ao vivo. Depois disso, nem precisava haver mais show, o preço do ingresso já tinha sido bem pago. Outros clássicos como Mistreated e Burn vieram na sequência, mas já não eram necessários.

 Com duas horas exatas de show, Glenn Hughes mostrou o motivo de ser reverenciado por músicos de todas as gerações. Sua energia, carisma e respeito pelos fãs é enorme. Após esse grande espetáculo, ainda dei um pulo no hotel para tentar descolar o meu autógrafo. Esperei por um bom tempo, mas o relógio já marcava 23h30 e, apesar de não morar no Jaçanã, se eu perdesse o próximo trem, só amanhã de manhã. No fim, trouxe meu disco sem o autógrafo, mas vi um show inesquecível e conheci gente bacana. O autógrafo? Deixa pra próxima, porque no fim, ganhei mais uma história pra contar e, como ele diz em uma canção, o importante é continuar se movimentando, ainda mais após uma aula de vitalidade e Rock'n'Roll. 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Afastando-me lentamente, me sentindo tão santo, só Deus sabe, estava me sentindo vivo – Quando todas as canções de Tom Waits me fazem lembrar de você

O velho gato vira-lata Tom Waits


Era inverno, na maioria das vezes nem tão frio assim. Te convidei pra algum passeio e você topou. Desde a primeira vez que nos cruzamos houve uma sensação forte de ambas as partes.  Vou confessar pra ti, minhas pernas balançaram desde aquela vez. Mas voltando ao nosso primeiro encontro, não demorei pra encontrar o momento certo pra te encaixar em um beijo. E toda vez que nós encostamos os nossos lábios, até hoje, “Little Trip To Heaven” vem em minha mente. É assim que me senti a na primeira vez e é exatamente desse jeito que continuo me sentindo cada vez que te dou um beijo, uma pequena viagem ao paraíso. As conversas continuaram, a intensidade só aumentava, nossos encontros também e aí veio "I Hope That I Don't Fall in Love with You", afinal, sempre me senti como o gato vira lata descrito na música e além disso, igual ao verso final e, quando fui ver, já estava apaixonado por você. Nos divertimos a beça, temos que assumir, rimos muito e fizemos coisas bastante estupidas e diferentes. Toda vez que lembrava de você,  "Jersey Girl" vinha na minha cabeça. Você mora em uma cidade estranha, grande, perto de São Paulo e toda vez que eu ia te ver tinha a sensação de estar cruzando a cidade e você sabe, só pra te ver. Aí veio a primeira crise e, bem, "Blind Love" não saia da minha  vitrola. Resolvemos nossa situação até que rápido, mas eu me sentia como o James “Caído”, afinal, continuava apaixonado por uma “Gun Street Girl”.  Outras crises, mais algumas voltas se sucederam, e eu me dividia entre “Ol’ 55 e “Hang Down Your Head”, principalmente nos meus momentos de raiva, quase sempre intensos. Continuamos assim até agora, mas espero que não seja obrigado a pegar meus sapatos velhos e tocar “Old Shoes” por aí e acho que isso não vai acontecer, porque no fim, ambos sabemos que você é ruim como eu, da mesma forma que Tom Waits disse em uma canção

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Cinco músicas para te curar da ressaca de amor

Nem o Homem de Aço suportou e foi afogar as mágoas após Lois Lane fugir com Lex Luthor. Fica assim não Superman e leia o nosso post


Às vezes tudo dá errado. Sabe aquela menininha linda, cheia de carinhos, com um toque todo especial? Ela te deixou.  Aí você fica perdido, não sabe o que fazer, corre o risco de cair na bebedeira e ficar em uma agonia profunda durante alguns dias. Nesses momentos, aquele disco especial, aquela música toca na alma. Parece que todas as canções foram feitas pra você e seu par e bate aquela bad. No Toca CD, no MP3, no celular, onde quer que seja, sua playlist vai de “Cryin'”, do Aerosmith, até “Retalhos de Cetim”, de Benito Di Paula.  Mas deixe de lado esse astral negativo e cure suas dores de amor com as cinco músicas abaixo. Garanto que você vai ficar excelente rapidinho.

05 – Bad Company - Good Lovin' Gone Bad: presente em “Straight Shooter" , segundo disco da banda, e escrita por Mick Ralphs, é daquelas que você se identifica na hora. Sabe aqueles relacionamentos enrolados, com pessoas que parecem bipolares? É mais ou menos o que essa música descreve. Vale a pena colocar no talo e se deixar contagiar pelo vocal poderoso de Paul Rodgers. Certeza que você irá resolver dar a volta por cima.

04 – The Faces - Ooh La La: Essa é a canção que dá nome ao quarto álbum da banda, lançado em 1973. Escrita e cantada pelo lendário Ronnie Lane, trazendo uma tremenda lição em suas estrofes: “Eu queria saber o que sei agora, quando era mais novo./ Queria saber o que sei agora, quando era mais forte.” Quem não queria? Até mesmo Rod Stewart e Ronnie Wood, colegas de banda de Lane e que regravariam essa canção anos depois.

03 – Lou Reed - A Gift: sua autoestima anda baixa, tem horas que você quer cortar os pulsos ou fugir? Não faça isso e escute essa ótima música do grande Lou, que faz parte de “Coney Island Baby”, afinal, você também é um presente para as mulheres (ou homens) desse mundo.  





02 – Wando e Nando Reis – Minhas Amigas: a tristeza te pegou, seus amigos tiram o sarro de você só por conta de sua forte paixonite. Não esquenta e faça como o Mestre Maior do Universo, o saudoso Wando, e seu camarada ruivo Nando Reis e vá procurar suas velhas amigas. Elas sempre estão dispostas a proferir palavras de conforto, pode ter certeza.


01 – Tom Waits - The Part You Throw Away : nada de depressão, ok?  Faça como o Tom Waits e decida o que você vai jogar fora. É sempre bom e possível também arrumar novos sentimentos, pessoas e amores. O restante você jogar fora por aí!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DISCOS INESQUECÍVEIS (E QUASE DESCONHECIDOS)

Del Shannon - Rock On







As vezes parece que os caras sabem que irão morrer e realizam o seu melhor trabalho em seus discos derradeiros. Acho que no caso do Del Shannon ele sabia, pois pouco depois do fim das gravações de "Rock On", ele resolveu meter uma bala de 22 na cabeça, isso em fevereiro de 1990. Uma pena, talvez estivesse prestes a ressurgir das cinzas e voltar a ter certo sucesso, pois este, sem dúvida alguma é seu melhor trabalho e foi lançado postumamente em outubro de 1991. Produzido por Jeff Lynne e contando com a participação de Tom Petty, este disco é um dos melhores do início dos anos 90, com um Del maduro e com a voz mais forte do que nunca.

A primeira música, "Walk Away" é uma grande balada, como "Runaway", sucesso de Shannon nos anos 60, é o tipo de música que você se apaixona de primeira por conta do arranjo magnífico e dos backing-vocals feitos por Lynne e Petty soarem muito bem.

Em "Who left Who", sentimos amargura do velho coração de Del e até entendemos o porquê de ter tomado uma atitude tão drástica. "Are You Lovin' Me Too" nos lembra um pouco as canções de Roy Orbison. O curioso é que Del estava cotado para substituí-lo no "Traveling Wilburys", mas infelizmente não deu tempo para ouvi-lo juntamente de Harrison e Dylan.

"Callin' Out My Name" é mais uma paulada de tristeza e romantismo de primeiro, uma das minhas preferidas, com uma letra sobre um homem que não pode ficar com a mulher que ama e como ele diz em um trecho da música, por ela fazer mal ao coração dele. Logo em seguida vem a minha favorita de todo o álbum, "I Go to Pieces", uma atualização de um sucesso escrito e gravado por Shannon em 1965. Mas com o seu coração magoado, esta versão ficou melhor, mais dramática e com uma atmosfera única, apesar de nos remeter diretamente aos anos 60.

“Lost in a Memory" não acrescenta nada ao álbum, sendo uma das mais fracas.
"I Got You" diferente da tristeza das outras canções traz um sopro de felicidade e tem um lindo arranjo que lembra um pouco o trabalho dos "Wilburys", apesar de ser uma canção apenas de Del. "What Kind of Fool 

Do You Think I Am? " possui um grande contraste  pois é uma balada tristonha mas com um arranjo totalmente para cima e um grande solo de guitarra, talvez o melhor de todo o álbum.

Em "When I Had You " eu já vou logo avisando, se você é ou for virar fã de Shannon, cuidado, pois a primeira estrofes da música parece ser profética.Para encerrar o disco, há o country "Let's Dance”, a mais fraca das 10 canções do álbum.

Na edição em CD temos cinco músicas bônus, o grande Rock' n' Roll com certa pitada de blues "Hot Love", um country de respeito, que nos leva há algum ponto remoto do Monument Valley, a locação favorita do diretor John Ford mostrada em  clássicos como “Rastros de Ódio” ou “Nos Tempos das Diligências”. O disco segue com a grande letra de "Nobody's Business", que apesar de ótima, soa um pouco chata no refrão.

"You Don't Know What You've Got (Until You Lose It) " é mais uma grande balada de Del e parece ser o encerramento perfeito do disco, mas para somos surpreendidos com  a  pedrada "Songwriter", uma demo emocionante, que prova que Shannon  é um dos melhores compositores de baladas em todos os tempos. Nada mais justo para o cara que escreveu "Runaway", uma das músicas eternas da era de ouro do Rock' n' Roll.

(Ficou curioso em conhecer este disco? Escute ele online clicando aqui)