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terça-feira, 14 de novembro de 2017

O fantasma do tempo

Todo o tempo vai passando na sua frente
Chronos e Kairós diante dos seus olhos
Enquanto seu coração se mantém preso ao tempo
E o passado se apaga da sua mente.
Os dias de diversão na sua sala,
Sinceramente, hoje não valem nada.
E o riso, o suor que escorria da sua testa
São apagados com pressa.
Quanto tempo será que me resta?
Velhos hábitos desaparecem,

Outro bate à sua porta agora,
Vai atender?
Será que vale a pena jogar a chave fora?
E nos seus pensamentos, independente do tempo,
Aquelas noites em seu apartamento irão surgir.

Não adianta tentar desistir agora.
E na boa,pra mim pouco importa.
Você já acenou diante da janela.
Não disse adeus, mas, aos poucos,
Me mandou embora.

Agora vou sumindo, me torno parte da história
Um pedaço que deve desaparecer, 
Como o fantasma de alguma outra estória.

sábado, 24 de junho de 2017

Desenganos e uma pergunta no ar

De cima do Elevado, trocando olhares
Andando lentamente, imaginando outros ares.
No frio d’alma, no calor de certos mares
Em outras camas, diversos lares
Estamos de volta a jogada, baby
Preparando a próxima bola que irá até a caçapa.

Diante do peso que temos em nossos ombros
Ou de todas as mágoas que cravam o nosso peito,
Voltamos ao velho labirinto, onde não conta o prazer,
Mas sim o respeito.

E nas estrelas diante de nós,
Numa busca incessante por paz,
Estamos aqui, no mesmo espaço,
Tentando nos encarar,
Ensaiando um novo paço.

Seus vizinhos te chamam de linda,
Mas você é mais que isso.
Quer ser reconhecida por outros caminhos,
Por outras vidas, algum novo destino.


E a terra roxa treme, como um peão prestes a parar de girar.
Surge algo no espaço, uma cor nova irá brilhar.
Mas dentro de mim tenho apenas uma pergunta:
Será que vamos nos encontrar?

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Chuva Negra



Das lentes do meu Ray-Ban observo essa cidade indigesta. Gosto de ver tudo mais escuro, sentindo o ar seco e sujo adentrando entre os pelos das minhas narinas. Acho que já perdi a esperança ou talvez tenha me acostumado com fracassos, mas fico feliz quando vejo o cara babaca e gordo que tá do meu lado. Ele conta pra um colega que vai viajar com a namorada e o quanto ama ela e atende seus desejos. É um dependente e isso é triste. Talvez algum dia ele apareça numa capa de jornal, com os dentes cerrados e tendo um punhado de sangue nas mãos. “Homem mata mulher a facadas e falha na hora de se matar”, que manchete brega e barata. Esse cara é um desses, perderia tudo dizendo que foi por amor. Só posso respirar aliviado, não pertenço a essa espécie, acho que parei de acreditar no amor. Mas um dia ele pode me atingir como um raio bem no meio da testa e aí vou me foder. Nunca sabemos quando tempestades como essas vão cair. Mas não faz meu estilo. Tô muito tempo andando nos trilhos, brincando com a sorte e arriscando baixo. Nem sou muito fã de baralho. Tenho alguns lugares pra me agarrar, algumas camas pra passar uma noite sem sono. Não sou um solitário como pensam por aí - nem tão durão. Só não gosto de me molhar na chuva e pelo rumo das coisas, a chuva será mais escura daqui por diante. Tempos difíceis estão perpetuando. É bom não esquecer do guarda-chuva. Sem ele fica impossível de se acender um cigarro e pelo céu nublado, vem uma chuva negra por aí.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

...como amantes

Vou amaldiçoar o seu corpo
Adentrar a sua órbita cerebral
Lamber cada dobra da sua barriga
Prender suas mãos e te preparar pro coito
Segurando sua cabeça de um jeito torto
Fazendo tudo como se fosse normal
Quero assobiar no seu ouvido
Explodir dentro da sua libido 
Quem sabe me apaixonar 
Olhando todos os planetas  em seu rosto
Sentindo na língua o seu gosto
Pimenta que ferve o meu paladar
E quando todos os amantes se sentirem perdidos
Deixe-me tapar os seus ouvidos
Me dando a honra de olhar pro céu
Enquanto Jeff Beck sola sua guitarra
Uma melodia tenra e amarga
Diz pra gente que tudo tem que acabar
Cause We've Ended As Lovers
E essa é a última vez que vou te amar

quarta-feira, 29 de março de 2017

Vento frio

Às vezes um vento frio bate em minha espinha
causa-me um arrepio, uma leve angustia e certa ansiedade
a sensação que algo vai se perder
finjo que não sei o que é isso, mas lá no interior, 
em todo o meu sistema nervoso central,
é você, é você com uma Calibre 12 apontada no meu coração
é você a causa dessa sensação
mas nunca te tive, então não poderia te perder
imagino cada boca imunda que você beijou após me conhecer
cada mão engordurada que  acariciou suas coxas em uma tarde cinzenta qualquer
e esse é o vento que bate em minha espinha
como uma chuva de ventiladores num dia quente de verão
com cada lâmina dilacerando meu rosto, me causando sufoco
Procuro fugir disso,  corro para algum pântano gosmento
esperando a   areia movediça puxar meus pés e todo resto do meu corpo
na minha mente, só um pensamento: será que vou te ver de novo?
Talvez seja delírio, coisas de um homem louco, esquecido pelas ruas, adentrando no lodo
mas acordo e é tudo um sonho
 o vento bate em minha espinha novamente e não me trás nenhuma resposta
o despertador grita e sou obrigado a retomar a minha rotina
é hora de continuar tudo de novo
enquanto o vento frio continua gelando a minha espinha

terça-feira, 14 de março de 2017

Como um solo de guitarra psicodélico solto no ar (ou apenas Certas Coisas do Coração)

Era uma daquelas tardes quentes de sábado, com solos de guitarra psicodélicos perdidos no ar enquanto o sol saia de cena. Dava pra escutar em lugares longe dali. Era essa a sensação que Pedro sentia em seu peito. Sons de trovão, com uma chuva doce e ácida. Foi assim que o amor se instalou em seu coração. Ele tava perdido, fodido, foi assim que começou. Os olhos dela eram intensos, desafiadores, como Muhammad Ali gingando no ringue, abrindo a guarda, pronto pra encaixar um cruzado ou um gancho certeiro. Mas ele nunca tinha experimentado isso e o gosto não era amargo. Nem o ar que ele roubava enquanto beijava a doce dama por quem  tinha se enamorado. O começo de algo, o fim de outra era. Como a dança em um musical esdrúxulo ou uma viagem alucinógena que teve em outros tempos, ele sabia e dizia o seguinte: “não vai durar”. Ela era forte demais pra ele, muito dona de si, realmente livre.  Pedro coitado, era muito responsável em seu trabalho de merda e, mesmo detestando, jamais conseguiria ser livre e ter os pés no chão como ela. E Pedro sabia disso. Mas você vai dizer que Pedro não sabia viver o momento e se adiantava o tempo inteiro. Talvez você tenha razão, mas Pedro tinha muito medo de certas emoções, principalmente a falta de razão que uma paixão fulminante leva até um coração. E, bobo que era, Pedro disse não. Que final triste pra uma história que nem começou. Mas Pedro não sabia lidar com certas coisas do coração. Por isso, idiotamente e inocentemente, Pedro disse não. Não se pode falar não pra certos sentimentos que nos despertam a paixão. Mas ela entendeu, seguiu seu caminho e pensou: “ele tem medo da desilusão. Não sabe viver os sentimentos que vivem nas ligações internas de qualquer coração.” Ela estava certa. Pedro não estava pronto, mas um dia vai estar. Quando esse dia chegar, Pedro vai estar livre pra fazer amor e parar de chorar.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Uma prece bêbada

A noite cai em nossas cabeças. Estou em frente a um velho bar que fica na avenida principal da cidade e toda hora coloco uma moeda na jukebox. “You Dont Know Me” não para de tocar. Fico imaginando nós dois na cama em alguma madrugada fria do final de maio, lembrando das carícias que fazia em suas costas fartas e do café à moda italiana que você preparava em todo nosso desjejum juntos. Não era só a trepada, tinha todo o papo e um mundo completamente diferente que você fazia parte. Andava com os loucos e poetas, discutia arte, quadros, coisas que nunca tive tempo pra apreciar. E você fazia isso parecer tão prazeroso e fácil. E o prazer de ver seus olhos brilhando quando contava alguma de suas viagens sem destino, sem um puto no bolso e sabendo dos riscos que podia correr. Mas você é forte e sobreviveu a cada encruzilhada que passou. 

Diferente de você, sempre precisei de uma muleta, de alguém pra me guiar. Talvez seja o resultado da criação da minha mãe, uma mulher incrível que sempre me deu apoio em tudo e estava lá quando precisei. Me ensinou errado, eu sei. Lembra daquela noite, sentados num bar com toalhas de mesa xadrez no lado sujo da metrópole? Você tava linda, na plenitude de sua beleza simples, mas forte. Desculpe-me pelo clichê que vou usar na sequência, mas era coisa de hipnotizar. Coloquei meu braço no seu ombro e tive certeza que era ali onde passaria o resto dos meus dias. Você não bebia, preferia ter ido em um café, algo assim. Mas a certeza que você era o porto certo pra amarrar o meu velho barco já usado por demais continuava. Mas, como em todo romance barato de banca de jornal, nosso caso não seria tão perfeito assim. 

Você me levou até a estação, me deu a mão e disse que haveria uma próxima vez. No meio dos mendigos oprimidos, seu olhar desapareceu. Não imaginei que era o nosso último momento. Como uma brisa, você passou por mim e nem disse adeus. Apenas refrescou minha libido e colocou meu coração numa eterna prisão. E por mais piegas que possa aparecer, tudo que peço quando olho para uma lua cheia em uma noite qualquer é te ver outra vez.  


Como já vi alguns velhos sábios dizendo, às vezes é necessário fingir que está tudo bem, enganar a nossa alma. Faço isso a todo momento. Ao mesmo tempo, enquanto a saudade faz do meu corpo um templo, fico torcendo esbarrar em você numa tarde quente de carnaval, enquanto os foliões bêbados dançam sem ritmo algum, diferente de ti. Quando você dançava tinha certeza que eu era capaz de te amar. Mas a vida é um mar de complexidade e talvez nasci pra perder. 

Às vezes, na solidão da minha cama, coloco um velho CD no meu discman - é, ainda tenho um. Aretha Franklin, plena e em toda ternura, me faz imaginar sua solidão, seus momentos perdidos. Como ela diz na canção, seria uma vergonha você não dividir seu amor comigo, mas a vida é estranha assim. Fazer o quê, é necessário continuar andando. Mas chega por isso hoje. Você nunca vai saber o que rola aqui dentro de mim e nem tem a curiosidade de descobrir. Tudo bem, preciso colocar mais uma moeda na jukebox. Talvez uma balada monstruosa do Joe Coker me faça bem. Sabe, apesar de você não beber, um brinde a vossa mercê, baby blue. Que os ventos do sul levem minha prece bêbada ao seu lar e que atinja diretamente seu coração, como bala perdida em uma noite violenta. Qualquer hora dessa, entre a mudança de uma estação e outra, venha me visitar. Seria um prazer dançar minha última valsa com você, como naqueles dias frios de maio. Essa é a maneira que me lembrarei de ti pra sempre, fingindo estar em um velho romance de banca de jornal e dançando contigo ao som de “You Dont Know Me”.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

À Procura

Noites de tormenta
Uma busca a lugar nenhum
Rostos insones pela madrugada
Talvez eu seja mais um
Das nuvens negras lá no céu
Espero clemência e perdão
Me ajoelhando diante do nada
Por um momento de fé ou razão
Autopiedade nunca foi o meu forte
Mas às vezes sei o trapo que estou
Bebendo em todos os bares
Muito menos sabendo quem sou
Arrumo o meu óculos à la Mastroianni
Coloco um cigarro no canto da boca
Procuro nas avenidas escuras
Esbarro em uma multidão louca
E nos becos dos mendigos
Tento te achar com afinco
Mas nada consigo encontrar
Sei que você não está lá
Mesmo sem fé ou razão
Mesmo não querendo o perdão
Tentando acreditar em Cristo
Até mesmo, quem sabe, no destino
Continuo a te procurar
Mas na minha agenda de telefones
Seu número já não está
E cada dia do mês
Em cada sono profundo
Cada vez mais aflito
Fico tentando sonhar
Com o dia em que vou te encontrar

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O ÚLTIMO BAILE (ou ENTRE PASSOS DE BOLEROS E UM FOXTROTE)

 Terça-feira ensolarada e, mesmo com muito calor, consegui dormir bem. Preparo um café no meu pequeno quarto com cozinha. Hoje a tarde tem baile e preciso estar impecável. Me barbeio, aparo o bigode e passo minha roupa. Calça de vinco e sapatos brancos. Uma camisa preta, com algumas estrelas brancas para chamar a atenção na pista. Ainda dou pro gasto. Arrumo os últimos detalhes e mastigo o pão velho e duro que comprei na padaria do picareta de cabelos acaju, o velho Divino, mas, mesmo assim, me sinto ótimo, afinal, ela me esperará com a blusa florida que dei em seu aniversário e o perfume doce que fica impregnado em minhas camisas de seda. Essência de fêmea que domina o meu peito.

Nossa, agora que reparei: já passou da uma e meia e preciso ir ao ponto, são três conduções até o salão. Claro que no caminho há lembranças de outras mulheres, principalmente da minha falecida, mas após três pontes de safena, ver um filho morrer após um acidente, tenho que continuar, viver o presente. Ficar de enlutado, de pijama furado e com um riso triste assistindo os péssimos calouros do Raul Gil numa tarde de sábado não é pra mim, não basta. O sangue ainda pulsa e a ciência desenvolveu o Viagra. Apesar que prefiro o Cialis, é mais seguro. O médico não recomenda por conta do coração, mas prefiro morrer entre os peitos de uma mulher do que em uma cama de hospital rodeado com os poucos amigos que me restam e estão vivos.

Enquanto espero o trem, vejo os jovens, todos cheios de vida. Ah, como era bom. Mais do que bom, era mágico. Era um jovem namorador, que acreditava no amor romântico, daqueles de música do Roberto Carlos. “Eu sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores”. É exatamente isso que ainda sou. Aquele jovem menino que pulava o muro do alambique e ficava embriagado durante a madrugada, para fugir correndo e descalço para a escola. O menino que admirava as curvas das panturrilhas grossas da professora Dete, uma jovenzinha de uns 21 anos, loira, linda, moça recém-formada. Ah, como prestei lindas homenagens a “Dona Dete”. Mas isso é passado e, apesar de feliz, não vale ser revisitado. O presente é o que importa. O cheiro daquela que me espera entrando em minhas narinas, ativando sentidos, trazendo gemidos até minha orelha, um movimento especial, sexy, enquanto ela mexe o quadril. Até parece que ao fundo um violonista flamenco sola ao fundo canções gitanas, daquelas feitas para requebrar. “Mercedita” talvez. Deixa isso pra lá. Fumo um cigarro escondido, já que ela não pode sentir o cheiro. Peço o isqueiro emprestado no meio do caminho, assim o vento vai levando o cheiro embora e não fico responsável por nada. Preciso comprar um presente pra minha rosa e acho que esse cordão dourado dá pro gasto. É apenas uma lembrancinha, só pra animá-la a dançar.

Faz dois anos que conheci ela. Tem 70 anos, é um pouco mais nova que eu, mas já puxou a faca pra mim algumas vezes. Sente um ciúme fodido, diz que sou seu homem, seu “nego”, o amor da vida dela. Não acredito nessas coisas, mas acho que devo aproveitar. Ela tava sentada num canto do salão, meio escondida. Fui lá e com toda minha malandragem, puxei pra dançar. A orquestra tocava um bolero. Acho que era Tortura de Amor. Realmente a noite estava calma, do mesmo jeito que o cantor entoava. Tive outras namoradas, fiquei noivo cinco anos com uma, mas quero sossego e, apesar do ciúmes, essa veio pra ficar. Tem umas donas lá que já me ofereceram casa, cama, diziam que pagavam tudo, mas não precisava e disse não, logo conheci ela. Perdeu tudo faz um tempo. O barraco foi derrubado pela prefeitura e eles não deram nenhum centavo. Dei cama, guarda-roupa e uma tábua de passar. Os armários da cozinha consegui com um amigo, Pago água de coco e guaraná, ela não bebe e eu parei faz tempo também. Viaja comigo sempre. Fomos em um baile em Salto. Ela até deixou uma carta pro vizinho dizendo que qualquer coisa, tava lá. Me acordava com café na cama, beijava, abraçava. Coisa louca, que me deixa cheio de vida, sabe? E dançamos a noite toda. O que a orquestra tocava, estávamos lá. Principalmente se fosse alguma do Ray Conniff.

Mas mil perdões, rapaz. Você vai trabalhar já e chegamos aqui na porta do baile. Preciso entrar, sabe como é, sempre pode ser o último. E não se pode desperdiçar um bom foxtrot, já que a vida é feita de danças, de movimentos contínuos, até mesmo intensos. O importante é manter o ritmo, o “dois pra lá e dois pra cá”, sempre com leveza e alegria, mesmo se errar. Sempre é possível enganar, rapaz. Fazer a dança certa. Mas me dá licença outra vez, o baile vai começar e ela tá me esperando, toda cheirosa, maquiada e hoje quero paz, ternura, como o velho romântico disse em uma canção. Bom trabalho e fica com Deus.

(PARA TODOS AQUELES QUE ESTÃO POR AÍ, PERDIDOS EM ALGUM BAILE DA VIDA)





sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Jogadas

Descendo a rua da sua casa
Sentindo cada músculo 
das minhas pernas.
Tentando descobrir
qual é o próximo passo.
Não sou que nem você,
que consulta mágicos, índios,
bárbaros e advogados.
Não tenho fé, nem acredito no destino.
Uso o vento como guia,
Deixo o coração dizer qual é o
meu caminho.
E, enquanto desço a sua rua,
tento compreender o nosso encontro.
Um momento de sorte,
repleto de jogos obscuros.
Um encontro de loucos
em uma noite sem fim.
Acabei no seu quarto.
Confesso: tava um trapo.
Mas você me trouxe cerveja,
deu um sorriso tímido,
Tirou a roupa, me deu um abraço.
E, como naquela música do Van Morrison,
Fizemos amor enquanto a lua dançava.
Você dizia coisas com os olhos,
me apertava.
E, passando os dedos sobre sua pele,
o seu cheiro de laranja exalava.
Mas agora, voltando a realidade,
Tô na porta da sua casa.
Basta você abri-la.
Tá na hora da próxima jogada.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A hipócrita dor do amor

Hoje a noite algo parou.
Meu coração disparou.
E nem sei o motivo.
O gosto da sua boca mudou
E em sua língua há espinhos.
Até ontem, baby blue,
 andamos no mesmo caminho.
Mas algo passou em sua cabeça,
Um filme sem cor, uma flor sem cheiro,
o momento onde o amor
se transforma em desespero.


Nossos sentimentos,
nesse momento,
velejam para o Ártico.
Sou obrigado a ficar aqui parado,
com um choro contido,
no meio do nada, 
procurando abrigo.


Mas você será forte,
como toda mulher é,
E enquanto sinto 
meu coração em pedaços,
imerso na pieguice
de um peito enamorado,
Você segue em frente,
diz que é a sua chance de
 recomeço.


Respiro, penso e sinto,
imagino nós dois na cama,
enquanto toco o seu quadril.
Logo depois, você acende 
o último cigarro.
Me olha mais uma vez,
Sopra a fumaça e diz:
 - Tchau, amor.
Abro os olhos.
Vejo que tudo não passou
de um delírio.

É melhor me esconder,
voltar a dormir
e chorar embaixo do cobertor,
enquanto acoberto a maldita
e hipócrita dor do amor.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Mais um dia

Teorias da conspiração,
Como as de um filme do Oliver Stone,
Surgem nos pensamentos dela.
Não é fácil acordar às 4h,
Lavar o rosto, calçar os sapatos,
Engolir o café a seco e seguir a rotina.
Saber que enfrentará o assédio de diversos 
babacas, velhos pervertidos e de clientes chatos
Por mais um dia.
Muitas vezes, perdida em seus pensamentos,
Solta um sorriso bobo, vai a alguma nova dimensão,
Mas logo é obrigada a voltar a realidade,
Ao trabalho chato e medíocre,
Que ela sabe não estar a sua altura,
No telefone uma nova reclamação,
Os comandos de uma nova missão,
Algo que ela não ganha pra fazer.
Levanta pra tomar um café,
Não dá sorte, o idiota de outra área
Insiste em convidá-la pra sair.
Tudo que ela queria, nesse crucial momento,
Era sair de cena, deixar pra lá.
Talvez ter um coquetel molotov
Mas seria um absurdo, melhor voltar pro seu lugar.
E na mediocridade do seu dia,
O seu olhar encobre alguns de seus sonhos,
Um encontro comum na fila de uma padaria,
Uma risada sem graça acompanhada de
Um beijo na bochecha.
Papos filosóficos pela madrugada.
Talvez na próxima semana isso aconteça,
Depois da sessão de terapia da quinta.
Mas agora chegou a hora esperada,
Desliga o computador,
Passa o relatório pra estagiária.
Vai seguir sua vida,
Tomar um banho, se fechar no quarto 
Com algum escritor russo.
Depois precisa dormir,
Já que amanhã é mais um dia
De sua dolorosa rotina.

Poesia eletrônica

Já não escrevem mais a mão
Não há sequer, no papel, 
A marca do batom.
É tudo touch screen,
Basta apertar um botão,
Simples assim.
Cartas de amor, 
Que costumavam ser bregas.
Ninguém escreve mais.
Ficam em bate papos infinitos,
Por meio de algum aplicativo,
Sem tempo pra sentir a saudade,
Apenas alguma instantânea felicidade,
Que maldade!
Os amantes, conectados a todo instante,
Não circulam mais pelas praças,
Muito menos sentam em bancos,
Estão sempre online, 
Mas com almas desconectadas.
Até mesmo o clichê das mãos dadas
Naquele velho pálido luar
É uma água passada.
Troca de olhares em um balcão qualquer,
Enquanto a cerveja refresca o corpo suado,
Foram substituídas por um cardápio variado,
Onde a sorte conta um bocado.
Pra encontrar com quem se quer.
Hoje meus versos são digitais,
Minhas palavras universais.
E de alguma parte do mundo, 
Um lugar globalizado e moribundo,
pós-moderno e após a bomba atômica,
Ainda insisto no verso e na prosa
Através da minha poesia eletrônica.

sábado, 5 de novembro de 2016

Anjo do amor

Eu tô perdido e confuso,
Sozinho num caminho louco,
Não aceita cartão de débito por aqui.
Não sei o que fazer, muito menos sentir,
Queria ser como Van Morrison,
Perfeccionista ao extremo,
Te escrever uma canção,
Ver se o solo de sax tá certo,
Te agarrar, te sentir.
Mas sou um intruso,
Um covarde, que todos os dias,
Todos os dias, queria dar um “olá” pra ti.
Pode parecer bobagem, uma loucura irreal,
Mas, desde que conheci você, te vi,
Tudo que desejo são noites quentes,
Sua cabeleira loira, seu cheiro,
E seu corpo todo, todo pra mim.
Sei que não tô rimando,
Nem tenho inspiração pra tanto,
Mas queria você aqui.
Queria você me afagando a dor,
Fazendo trapézio da minha solidão,
Me amando como sou.
Não sou um infeliz,
Muito menos imbecil,
E, talvez, tô esperando um anjo louro,
Que me traga algum tipo de conforto,
E que, de certa forma, ore por mim
Não vou chorar e sofrer.
Sei que seu caminho é longo,
E eu tô perdido, perdido no meu destino.
Gritando contra a dor, procurando seu amor.
E, do nada,
Você pode surgir aqui pra mim,
Cheia de dúvida e certo rancor,
Com velhos receios,
Quem sabe sem medos,
Pronta para ser, apenas,
Meu eterno anjo do amor.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O Cara Certo

Eu devia estar me afogando em lágrimas,
bebendo tequila barata e confidenciando 
a minha vida ao garçom.
Devia estar com vontade de me esconder,
botar fogo em algum canto, apenas te odiar.
Devia estar com uma dor de cotovelo daquelas,
tentando me jogar de alguma  janela
 ou nadar até um lugar bem distante no mar.
Devia mandar botar seu nome na macumba,
te amaldiçoar, desejar pra ti uma bela corcunda.
ou ver você virar loba ao luar.
Mas não consigo, você sabe que eu não minto.
Tô feliz, alegre por você, pelo mundo,
rido até pro cara de sorte que agora vai te amar.
Fui incapaz, sou grosseiro,
o carrapato no seu travesseiro,
o cavaleiro destinado a te libertar.
Agora você traçou o seu próprio caminho,
abriu as porteiras do seu próprio espaço,
me libertando, deixando eu ser feliz sozinho.
Mas mantendo certo carinho,
que espero não perder
em alguma virada do destino.
Mas, egoísta que sou,
Tomo mais um trago, fumo rapidamente 
e fico observando  alguma garota passar.
Nosso tempo sempre foi outro
e agora, sem receio algum,
com um sorriso cínico na boca
e um cigarro preso nos lábios,
te digo, com certeza,
 que nunca fui o cara certo pra te amar.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Pro universo

Você partiu na manhã de sábado.
Um sol escaldante pairava sobre o seu corpo.
Sua sombras brilhavam por toda rua.
Era proposital; era a última vez que te via.
Fizemos amor na noite anterior
E no calor do quarto, sufocava ao seu gemido.
Decibéis de prazer como trilha sonora
De uma noite de lua cheia próximo
A uma triste aurora.
Sabia que você ia embora,
Mas evitei qualquer assunto,
Queria evitar um clima de tensão,
Algum tipo de tristeza, sabe.
Me concentrei na safadeza,
Em todo o tesão.
E na natureza dos nossos corpos nus,
O meu desejo era que em seu sexo,
Uma chuva ácida, à lá Hiroshima e Nagasaki,
Surgisse do nada e me fizesse sentir.
Sentir todo o prazer que você me oferecia
Outra vez.
Não insisti pra você ficar,
Já que acredito que a vida são ciclos.
E apesar desse meu pensamento clichê,
Da poesia pobre de revista Amiga
E do meu espírito inconstante,
Achei que por um momento,
Algum instante,
Poderia te amar.
Mas não deu, foi mal,
Deixo você me odiar.
Às vezes acho que há um buraco no meu coração,
Um vazio pra preencher,
Aquele espaço pro rejunte,
Igual nos velhos azulejos azuis da cozinha.
E é melhor você partir,
Talvez você se assuste.
Mas honey darling,
Além da liberdade de ir,
Te dou a de voltar.
E, no momento certo, mesmo que seja no inferno,
Puxe uma cadeira, se aconchegue
E fique pra ficar.
Ou só respire mais um pouco,
Me deixe rouco e, no meu tempo,
Você pode me amar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

YOU

Queria falar de amor,
Escrever uma canção,
Acertar o tom,
Tirar o acorde certo.
Ser simples, (in) discreto,
Direto, tentando um papo reto.
Pego uma nota, brinco com ela,
Puxo a inspiração de um canto,
Mas nada acontece.
Fico pensando, parado,
Feito um babaca,
E a inspiração não floresce.
Manjo um pouco de inglês,
Tento ser um poeta de Latinoamérica,
Nem um verso aparece.
Dedilho o violão, tiro alguns sons,
Não consigo.
Nesse momento, penso em George Harrison,
Em alguma paixão e no seu corpo nu.
Lembro da crueza da sua alma,
Das ancas e andanças.
E invento uma canção pra tu.
Baby, it’s for you,
Just you...

Por hoje basta

Sente-se e tome alguma bebida.
Sei o quanto é difícil ficar a vontade,
E o meu papo até parece música,
Música de má qualidade, é claro!
Tente relaxar, de verdade.
Esquece o calor que tá lá fora
E de todos sonhos perdidos outrora.
Daquela gente com coração frio,
Querendo sucesso a qualquer preço,
Sem se importar em amar.
Almas nem tão vazias,
Mas tristes, perdidas,
Sem nenhuma luz pra brilhar.
Encoste o seu corpo com o meu.
Pele com pele, é bem melhor assim.
Fica tudo mais fácil.
Deixa eu beber esse suor repleto de medo.
Com gosto da dúvida e certo receio ao se entregar.
Entendo que seu coração já foi machucado,
Tá calejado, empedrado, enquadrado.
Guardado em alguma gaveta vazia atrás do armário.
Me sinto assim também, mas só de vez em quando.
Aí fico no canto, refletindo e pensando.
Tentando me encontrar.
Mas já tô perdido, milhas e milhas longe 
Do meu real destino.
Então, o que me resta,
É sentir você sem pressa,
Esquecer do meu relógio velho, 
Que fica pendurado na cozinha,
Sentir seu cheiro felino,
E te fazer minha,
Só minha.
E isso, por hoje,  basta.

sábado, 8 de outubro de 2016

Doido pra Brigar... Louco pra Amar

Sozinho numa noite sem fim,
Andando por aí em uma rua vazia.
Dormindo em um banco sujo do carro.
Sempre ando de ressaca.
Tô sempre fodido.
Sem ninguém pra me ensinar algo.
Pode ser até sobre amor.
Mas só quero seguir o caminho,
continuar sendo durão.
Um homem sem medo, sem receio de mostrar
as coisas que dominam seu coração.
O orgulho, bem, ele não leva a nada.
E perdedores, mesmo como eu,
são os verdadeiros campeões.
Não se deixam levar por besteira,
muito menos levam a vida a sério.
Tô falando demais, já enchi o saco.
É melhor acender outro cigarro,
exalar fumaça e partir.
Andar sem dar a mínima,
como aquele herói daquele
velho filme de quinta.
Frases prontas não me convencem,
muito menos daqueles que acham
que vencem.
Estou por aí, numa fria esquina.
Sem classe, muito menos rotina.
Só fica na espreita, esperando a chuva passar.
Tomando algum trago, celebrando a vida.
E, por mais negativa que seja,
a única coisa que me importa,
é a adrenalina.
Seja por meio de poesia
ou correndo em um parque,
sentindo o vento na cara,
fugindo de alguma sincera monotonia.
No fim, me divirto.
Sou como aquele cara de um filme antigo,
doido pra brigar, louco pra amar.
E, se agora você me permitir,
vou entrar em outro boteco.
Quero é me divertir.

Prateleiras

Sentados no parque em um dia de verão.
Mãos com mãos, como se o destino
não reservasse algum final pra aquilo.
Ele dizia que estaria lá a qualquer momento,
a qualquer hora.
Ela custava em acreditar, mas decidiu viver
o clima, aproveitar esse pouco de tempo.
Talvez o que mais ele precisasse era saber que
ela não o queria da mesma forma que ele.
Mas, apesar disso, os dois se olhavam nos olhos,
compartilhavam sorrisos.

Ele sabia que ela era mais esperta.
O cara era um verdadeiro pateta.
Dizia para os amigos que, finalmente,
tinha encontrado sua Cinderella.
Que negócio mais brega.
Ela era mais centrada, direta.
Não vivia em mundos de fantasia,
Muito menos acreditava em amores
pra toda vida.
Tinha certeza que encontraria uma nova paixão,
num momento incerto, nas prateleiras de uma livraria.

Ele ligava pra ela todos os dias.
Era um grude, um porre.
Ela continuava por lá,
Nem sabia o motivo,
Mas queria testar sua sorte.
Acreditava nos olhos de ternura dele,
mesmo sabendo que logo deveria partir.
Ele sofreria, a amaldiçoaria
e ela só queria ser feliz,
mesmo com seus olhos
repletos de melancolia.

Naquele dia no parque,
resolveu dizer toda a verdade.
Disse que não o amava, não precisava viver aquilo.
Gostava de ser só e de suas próprias ideologias.
Ele não caiu em prantos, nem jogou praga.
Disse que entendia perfeitamente,
não queria nenhum tipo de briga.
Ela se surpreendeu, não imaginava essa reação.
Na verdade, ele só estava tentando ser durão.

Nos meses seguintes, ele sofreu.
Bebeu em todas as espeluncas da Rua Augusta.
Passou vexame em todos os restaurantes onde comia.
Até que uma hora caiu na real e viu que isso não resolvia.
Deveria era seguir a vida.
Resolveu comprar um livro idiota de autoajuda,
daqueles repletos de frases sobre o destino
E que não resolvem porra nenhuma.
Ela sobreviveu, era forte.
Não precisava de nenhum homem ( que mulher precisa?).
Se sentia confortável sozinha, até mesmo resolveu
aprender gastronomia.
A cozinha era sua nova paixão,
mas precisava renovar o estoque de receitas.
Resolveu sair de seu novo endereço
e ir até a livraria da esquina.
Perguntou ao vendedor onde ficava
os livros de culinária.
Mas o destino, um infiel companheiro,
Novamente a surpreenderia.
Afinal, entre as prateleiras,
ela avistou ele.
Ele riu e foi até o seu encontro.
Nesse momento, apesar de patético,
ela descobriu que ele, por mais idiota que seja,
poderia ser o amor de sua vida.


Anos depois, apesar de muitas luzes
terem se apagados.
Eles estavam juntos. construíram um sobrado.
Ele amadureceu, compreendeu um pouco
dos mistérios da vida.
Ele havia mudado.
Ela continuava a mesma, só que agora cozinhava
E entendia o que ocorria.
Não queria mais ficar sozinha, cansou da velha rotina
E, no final da noite, ao som de um velho standard de jazz,
os dois dançavam, mas tinham pressa.
Precisavam ir logo pra cama, queriam fazer amor.
Agora eram sinceros um com o outro, diferente do passado,
afinal,descobriram sobre as surpresas que a vida prega.