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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A serenata de São Diego

Algumas músicas beiram a perfeição. É o caso de San Diego Serenade, presente em The Heart of Saturday Night, clássico de Tom Waits. Acho que se você ouvir, vai compartilhar do mesmo sentimento que eu sinto. A letra e música abaixo:


Nunca vi a manhã até ficar acordado a noite toda
Nunca vi a luz do sol até você apagar a luz
Nunca vi minha terra natal até ficar longe por muito tempo
Nunca ouvi a melodia até precisar da canção

Nunca vi o meio-fio a até te deixar pra trás
Nunca soube que precisava de você até estar encrencado
Nunca disse "Eu te amo" até te amaldiçoar em vão
Nunca senti o meu coração até quase ficar insano

Nunca vi a costa leste até mudar-me para o oeste
Nunca vi o luar até ele brilhar fora do seus seios
Nunca vi o seu coração até tentarem roubá-lo, roubá-lo de mim
Nunca vi suas lágrimas até escorrerem pelo seu rosto

Nunca vi a manhã até ficar acordado a noite toda
Nunca vi a luz do sol até você apagar a luz
Nunca vi minha cidade natal até ficar longe por muito tempo
Nunca ouvi a melodia até precisar da canção

domingo, 13 de novembro de 2016

Play it again, Sam

Canção. Palavra simples, mas cheia de significado. Uma canção, muitas vezes, significa um estado de espírito, alguns minutos marcantes da insignificante existência do ser humano nesse universo que se perdeu há muito tempo. Podem ser dias tristes ou alegres, mas alguma canção estará tocando em um rádio, mesmo que seja uma ruim ou alguma feita apenas pra dançar. Prefiro deixá-las por aí, gosto das que discutem algo relevante, daquelas que realmente mexem com algo por dentro, ficam intrínseca na carne e no espírito, geram reflexão e esperança. Com apenas dois dias de diferença, perdemos dois craques desse estilo, caras que realmente sabiam o que significava a expressão blues. Leon Russell hoje, Leonard Cohen na quinta-feira. Como o mundo fica mais chato sem a poesia e música desses caras. Claro que será eterna, afinal, discos servem pra isso, mas muitas vezes apenas isso não é o bastante. Nesses últimos dias me peguei emocionado em alguns momentos e é gozado, já que não conheço esses caras pessoalmente, mas, através de suas canções, me tornei íntimo de cada um deles. Talvez há um pedaço de todos nós em cada música que eles escreveram e tocaram, mesmo as feitas antes de nosso nascimento. Ou será que a questão é a reflexão e os questionamentos inseridos na obra de cada um foi um questionamento em algum momento de nossas vidas, mesmo de quem nunca ouviu nenhum dos dois? As duas coisas, sem dúvida. Se existe algo além das nossas galáxias, se realmente o céu ou inferno estão em algum lugar da nossa pós-existência terrestre, apenas os indígenas, os poetas e os músicos sabem disso. A chave desses lugares estão em seus bolsos ou em cima do piano, jogada entre o cinzeiro e os copos de cerveja e uísque. Talvez fiquem entre os arpejos de tal nota, não sei. Fico aqui, imaginando nesse possível paraíso, em Ray Charles, B.B. King, Lou Reed, J.J. Cale e todos os grandes fazendo festas diárias, repleta de barris de cerveja, sem hora pra acabar. Encontros inimagináveis, como Agepê e Wando  escrevendo uma letra juntamente de Serge Gainsbourg, Gonzaguinha fazendo mais uma canção política na companhia de Woody Guthrie ou Nelson Cavaquinho tirando um blues com Muddy Waters e Junior Wells. Enquanto isso, James Brown e Etta James improvisam passos de funk num samba enredo cantado por Jamelão. Como diria o Erasmo Carlos, uma tremenda festa de arromba, enquanto aquelas maravilhosas “tias” da velha guarda de alguma escola de samba fazem os rangos com aquelas mammas americanas que cuidavam das violentas casas de blues na beira da estrada. Em uma outra nuvem, Thelonious Monk martela o piano, enquanto Vinícius e Tom criam uma nova letra ou melodia e Duke Ellington fuma seu cigarro de filtro longo. Enquanto isso, Elvis tá na capela do lugar e Frank Sinatra tá com a cabeça enroscada com os caras da máfia. Aí, de forma celestial, com direito a tapete vermelho, através de um elevador e num céu parecido com aquele mostrado pelos caras do Monty Python em “O Sentido da Vida”, surge Leonard Cohen, todo de preto, de braços dados com Leon Russell, numa beca branca, assim como sua barba. O silêncio toma conta do lugar e faz sentido, afinal, agora eles vão compor e cantar. Longa vida, mesmo que através dos discos, aos trovadores, poetas junkies, músicos de cabaré, todos eles, nossos grandes mestres da canção. Sem eles, não valeria viver, até mesmo digladiar. Agora ligue o rádio, aumente o som e play it again, Sam.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Seguindo em frente

Continuar, prosseguir. Por que é tão difícil pra tanta gente seguir em frente? Claro que é confortável manter velhos hábitos e seguir padrões que não levam a caminho algum, mas vale a pena? De que vale manter velhas amarguras dentro do peito se você pode encontrar novos prazeres por essa estrada mal pavimentada que é a vida. Não vou falar que foi fácil para mim, mas seguir em frente, sem olhar as coisas que deixei no meio do caminho, hoje é algo natural, simples, como passar manteiga derretida em um pão francês. É só dar um passo de cada vez, sem pressa alguma. Como o passageiro de um trem viajando para o desconhecido, que resolveu descer em uma estação pacata só para sentir o cheiro do orvalho matinal. Claro que seguir em frente é um exercício doloroso muitas vezes, mas é um processo libertador e a chance de trazer novas cores pra vida. Velhas ideias, gostos e paixões ficam guardadas em armários enferrujados dentro do cérebro e da alma, tudo separado por arquivos. Aquilo que foi bom e acrescentou algo será lembrado. Já os sentimentos ruins, a raiva e o ódio por inimigos inexistentes logo desaparece, nem vale a pena lembrar. Há um incinerador em pleno funcionamento em algum lugar remoto de nossa memória. Seguir em frente é a chance de fazer tudo diferente, de cometer novos erros, mas sempre com a oportunidade de jogar os dados novamente. Regozijar-nos, regozijar-nos, não temos outra opção senão seguir em frente. Ouvi isso em uma canção de tempos turbulentos, nas vozes de sonhadores que apenas queriam um amanhã mais ensolarado e repleto de paz. Talvez hoje eles estejam velhos como seus sonhos, quase mortos e desesperançados, mas sabiam que pra cantar o blues, você tem de viver no tom e seguir o fluxo sempre pra frente. Como eles diziam em inglês, go your way, I'll go mine and carry on.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

YOU

Queria falar de amor,
Escrever uma canção,
Acertar o tom,
Tirar o acorde certo.
Ser simples, (in) discreto,
Direto, tentando um papo reto.
Pego uma nota, brinco com ela,
Puxo a inspiração de um canto,
Mas nada acontece.
Fico pensando, parado,
Feito um babaca,
E a inspiração não floresce.
Manjo um pouco de inglês,
Tento ser um poeta de Latinoamérica,
Nem um verso aparece.
Dedilho o violão, tiro alguns sons,
Não consigo.
Nesse momento, penso em George Harrison,
Em alguma paixão e no seu corpo nu.
Lembro da crueza da sua alma,
Das ancas e andanças.
E invento uma canção pra tu.
Baby, it’s for you,
Just you...

sábado, 8 de outubro de 2016

Papel sulfite

Muitas vezes, uma garrafa de cerveja,
um copo americano, uma caneta
e alguma folha de papel vazia
são as melhores companhias de um homem.
Um toca discos ajuda também,
mas sempre há um risco.
O risco das canções que velhos discos trazem de volta.
Canções bregas, românticas, rock'n' roll ou serestas.
Todas elas trazem lembranças ou, quem sabe,
alguma inspiração nova.
Memórias de festas,
talvez o Sol de uma nova manhã.
E na cabeça do poeta,
Uma confusão acontece.
Na verdade, é quase uma guerra.
Palavras surgem para cobrirem
a folha branca de papel com emoções.
Talvez Dionísio tenha haver com isso,
mas o álcool flui nas veias.
O coração surge através de uma prosa
repleta de besteira.
Velhas paixões se transforma num rabisco
feito pela caneta.
Frustrações se transforma em dores agonizantes,
por mais que sejam patéticas.
Amores se transformam em um filme repleto de frases
e garranchos, sem dúvida alguma, via a veia poética.
E no final de toda essa aventura,
vivida através de bebida e música,
a poesia aparece, mesmo sem sentido ou crua.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Domingo

Você desce do seu carro de uma forma tão cool
Tipo o Lou Reed com camisa preta e óculos escuros
tocando um rock básico, direto e intenso.
Suas pernas, longas por sinal, se mexem de forma tão incrível.
Na real, as ruas da cidade ficam pequenas pra você.
Talvez seja o jeito que você mexe a bunda enquanto anda.
Garota durona, mulher difícil, deusa dos sonhos juvenis.
Talvez Robert Crumb tenha te desenhado em algum quadrinho sujo.
Não poupe suas palavras e diga o que quiser; bobagens, de preferência
Componha um rock’n’roll, uma canção de amor, mas esqueça do final feliz.
Tô cansado desses caras que sempre falam do amor e da dor.
E você tá tão sexy, que nem precisa perder tempo com isso.
Tome algum drink, um gim e dance.
Dance até cansar, até o seu corpo ficar realmente solto.
Não se preocupe com o futuro, só pense no princípio.
“Princípio do quê?”, você deve estar se perguntando.
Tomara que seja do prazer, do êxtase e do ardor
Essa noite quero provar do teu ópio e me alucinar.
Talvez isso ocorra enquanto um coral de bêbados canta uma canção de ninar.
Mas, fingindo que mudo de assunto,
Há um jazz que toca dentro de mim enquanto você me agarra e ri.
Uma maldade cheia de charme, minha menina sacana.
Mas agora já vai chegando a hora de partir, já clareou lá fora.
Os pássaros nos observam através das frestas da persiana.
Temos que esvaziar o quarto, começar outra semana.
Mas, por mim,  todos os dias poderiam ser intensos, deveriam ser quentes.
Quentes como são todos os  meus domingos com você.
Que prazer!

domingo, 7 de agosto de 2016

A importância do que você pensa

Me chame de pervertido,
Seu cínico.
Me chame de sujo,
Seu imundo.
Me chame de pederasta.
Seu canalha.
Mas não humilhe meus versos.
Não diga que eles são algum tipo de lixo.
Nem que dá pra reciclar.
Não me chame de amigo,
Muito menos de camarada.
Deixe eu libertar a voz do meu peito.
A voz dos meus pensamentos.
Não me enche o saco,
O mundo tá repleto de bastardos.
E esse fardo, esse negócio pesado,
É só meu.
Só quero que você leia,
Não quero que entenda.
Afinal, esse coração.
E essa mente,
Que você acha suja e perturbada,
É só minha,
Mas ela me faz criar poesia.
Então lave a boca seu canalha.
Deixe eu escrever os meus poemas do nada.
Não me julgue.
Não pedi sua opinião.
Mas não importa.
Esse é só mais um poema que saiu das minhas mãos.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Canção da guerra para eu sonhar (ou pra te encontrar)

O dia é frio e minha cabeça tá gelada.
Minhas orelhas queimam, será que é você falando mal de mim?
Quando vamos nos encontrar novamente?
“We'll meet again, don't know where, don't know when”,
já diz aquela velha canção da guerra.
Um café, alguma prosa, isso não custa nada.
Alguns cigarros apagados na calçada, um passeio na noite suja dessa cidade
Que não dorme
Nos edifícios pixaram seu nome, eu vi outro dia.
Um novo romance, alguma paixão passageira, uma foda casual.
Só pode ter sido isso.
Até penso em te ligar, quem sabe não tento falar sobre o mistério de um dia de escuridão?
Às vezes minha alma chega a queimar, como um prédio em chamas, uma Roma atual e toda rachada.
Mas ainda há uma dúvida pairando na nuvem do meu cérebro: será que vai acontecer que nem o Johnny Cash canta?
We'll meet again, don't know where, don't know when. But I know we'll meet again some sunny day.
Eu não sei.
Só sei que por enquanto apago toda a luz do meu quarto,
Quem sabe assim não volto a sonhar com aquele teu velho retrato, meio apagado, antigo.
Talvez num desses sonhos eu te vejo de novo, mesmo não sabe onde ou quando, regras básicas do jornalismo.
Mas quem sabe num dia de sol, diferente desse que nós passamos hoje, você não cruze a esquina.
Dai, na janela do meu sobrado, vou assobiar uma música nova, algo que compus na guitarra.
Assim você se inspira e, quem sabe, fica grudada na minha vida.
Mas como tudo é uma questão de encontros, é melhor seguir meu caminho.
Algum acaso pode ocorrer e, finalmente, nos vemos algum dia.