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domingo, 7 de agosto de 2016

A cidade (eu quero ela, mas ela não me quer)

O clima está excelente.
Talvez a noite prometa algo.
Não sei, mas meu coração tá apertado.
Alguns dias queremos conquistar a cidade.
É esse sentimento que sinto dentro de minha alma.
É esse sentimento que quero expor.
Me perder entre esses muros carregados de mágoa.
Me entreter nos lindos peitos da saudade, do arrependimento.
De todas as merdas que eu já fiz.
Às vezes a cidade te oferece um clima ótimo,
Uma lua especial,
Mas é melhor se entreter sozinho.
É um aviso:
“Mantenha-se longe das máquinas, dos problemas, meu jovem!”
E tudo que penso é mandá-los a puta que os pariu.
Talvez minha mente ou alma seja perturbada (APENAS UMA DAS DUAS)
Às vezes me sinto como Sinatra cantando That’s Life.
Em algum mês eu vou ressurgir, me tornar rei,
Conquistar tudo, mulheres, ouro, seu maldito coração.
Na maior parte do tempo me sinto assim.
É ótimo.
Mas, voltando, quero conquistar a cidade.
Você me orienta?
Me explica como?
O clima tá tão bom.
Mas há uma energia ruim no ar.
Você não sente?
Algo carregado, como uma nuvem repleta de chuva.
Sem orgasmo, sem tesão.
Nem toda tempestade deveria ser assim.
Mas quero conquistar essa imensa cidade.
Ver meu nome nas luzes.
Que porra eu tenho que fazer pra isso?
Minha mãe me acha um gênio!
Será que vou ter que ligar  minha guitarra?
Tocar um hino, como Hendrix?
Eu vejo várias garotas passarem por mim.
Desejo todas.
Desejar é ativo, ser desejado é passivo.
Isso é o que diz um espanhol popular.
Ele tá certo.
Desejo você, desejo todas.
Quero você, sua amiga, sua mãe,
todas nuas na minha cama.
Quero me inspirar por vocês,
Mesmo que isso seja um problema.
Mas quero me perder pela cidade.
Ela não me dá espaço.
Ela é durona comigo.
Quero fazer amor com ela.
Algum tipo de carinho.
Mas ela não deixa.
Essa maldita velha dama.
Quero sentir seu fogo,
Seu cheiro.
Quero descobrir os seus pecados.
Sujos, depravados.
Mas ela não se abre.
Maldita seja.
Me deixe tomar uma cerveja em seus lindos seios,
Oh, seios de uma falsa liberdade.
Eu os desejo.
Minta pra mim, sem verdades essa noite.
Diga-me a verdade apenas após a meia-noite.
Trepe comigo até o próximo anoitecer.
Doce pássaro da juventude.
Doce charme da tarde.
Quero você
Quero sentir seu gosto, descobrir que sabor você tem.
Até eu arranjar uma cidade,
No ano que vem.
Só o ano que vem.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A garota que nunca esteve lá

Se encontraram apenas uma vez
E a identificação foi instantânea
Olharam olhos nos olhos
E a Terra toda tremeu naquele momento
Se despediram,  com certo ar aflito
Pra nunca mais se encontrarem
Mas já era,
Você se sentiu envolvido pelo par de olhos,
Mas a garota nunca esteve lá.
Então você a procurava em sonhos,
Neles você a amava, até mesmo sentia sua pele
Mas, quando acordava,
A garota já não estava lá.
E ia pro trabalho,
Relembrando o rosto daquela mulher,
E as lembranças te traziam mais desejo,
Seu coração ficava inquieto,
A respiração sempre ofegante,
Culpa de todos os cigarros
Cigarros que você fumou,
Esperando aquela que não estava lá.
Mais um dia se passou,
Você não fez absolutamente nada.
Tomou um gole de café,
Arrumou o nó da sua gravata
Sentou no sofá e ligou a TV,
Não adiantava nada,
Ela não estava lá.
Então você resolveu cair na real,
Nunca mais tentou entrar em contato,
Mesmo achando tudo isso um saco
Resolveu aceitar que nunca mais ela ia voltar,
Ela não te daria uma chance de amá-la de verdade,
Afinal, ela nunca esteve lá.
Num final de tarde ensolarado,
Em uma praça qualquer,
Você vê a bela figura daquela mulher,
Mas não faz nada.
Você que sonhou acordado tanto tempo,
Sempre desejando encontrá-la
Não vai fazer nada,
Descobriu que é melhor deixá-la pra lá,
Já que, ela nunca pertenceu a nenhum lugar,
Muito menos ao seu frágil e pobre coração
E nunca, nunca mesmo,
Ela estará lá,

terça-feira, 21 de junho de 2016

Coisas pra fazer

Muitas coisas pra fazer, coisas que eu nem sei o que são.
Não assisti a todos os filmes de Fellini, Bergman ou Antonioni.
Nem li os livros de Burroughs, Hemingway ou Fante.
Nunca lutei boxe em um ringue por dinheiro.
Muito menos empunhei minha guitarra por promessas de ano novo em janeiro.
Tive medo da psicologia junguiana descobrir que meus sonhos são apenas pó.
Tenho medo que desse pó algum pesadelo surja para encher minha vida de loucura e dor.
Preciso de mais Foucault, Sartre, Nietzsche e Camus em noites de dúvida, sexo ou amor.
Preciso sair da discussão besta  partidária e ir as ruas fazer a verdadeira política.
Quero noites quentes de verão em junho, quando o hemisfério sul congela no mais impiedoso inverno e assim, nu, poder experimentar do seu sexo.
Anseio por menos dores de cabeça, mais alegria, menos tristeza, por qualquer beleza.
Se eu pudesse, seria como Leonard Cohen cantou naquela canção e estaria aqui, pra ser seu homem.
Quando a lua cheia aparece, geralmente não tenho ninguém em meus braços e por isso a detesto.
Mas talvez, com tantas coisas ainda pra fazer, como viajar o mundo a pé e sem nenhum  centavo, uma hora dessas a lua pode ser caridosa comigo.
Pode me trazer o seu suave perfume, um pequeno pedaço de todo o seu sex-appeal.
E como dois velhos bêbados, a espera de não sei o que, nos cruzaremos a cidade.
Assim vamos descobrir mais coisas novas pra encher nossas vidas de alegria, prazer e felicidade, por mais insonsa que ela seja.
Mas enquanto isso é apenas pó, vou anotando no meu caderno em uma lista idiota tudo o que eu quero fazer e não fiz nem sei por que.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Uma Deusa na minha porta

Há uma Deusa na minha porta.
Ela acaba de dançar no corredor.
Ela não tá nua, mas me parece completamente sexy
E agora olha diretamente em meus olhos.
Nos meus pensamentos, eu que sempre fui tão sozinho e vivi o dia de hoje loucamente,
vislumbro o futuro.
Há uma coisa animal, de pele, de cheiro.
Não sei explicar, um tesão apenas no olhar.
Como eu gostaria de estar nos braços da Deusa da minha porta.
Sentindo seus lábios vermelhos, nem tão carnudos assim, mas sensuais.
Sensuais como a velha pin-up daquela revista masculina da borracharia.
Queria pegar na sua mão, com diversas cicatrizes de ex-amores,
Escutar seu coração, observar sua alma e descobrir quais os seus pavores.
Qual é o medo da Deusa na minha porta?
Talvez seja o medo de amar, da entrega, coisa comum em quem já tá cansado da busca e da loucura.
Relações são como a navalha do barbeiro que faz a minha barba.
Sempre há uma lamina no meio, algo cortante, mistérios do coração.
Talvez a Deusa na minha porta tenha o medo de correr riscos.
Logo ela, que já viajou o mundo, deixando seus cabelos louros ao sol.
Sentiu a brisa da estrada, sem pudor algum, com um cigarro aceso no canto da boca.
Filtro branco, pra parecer um pouco comum.
A Deusa na minha porta talvez saia a noite pra brincar de gata.
Dorme 38 horas e na madrugada percorre becos, esquinas, em busca de sei lá o quê.
Melhor não saber.
A Deusa na minha porta não me deixa dormir.
Estou insone há vários dias, e a Deusa continua ali, me causando prazer e agonia.
Fico com vontade de me apaixonar, de empurrá-la na parede e fazer amor.
Mas algo me bloqueia.
Será que é a minha cabeça, já tão degastada por conta dos desperdícios do meio do caminho?
O que eu posso fazer com a Deusa que permanece lá, na minha porta?
Convido ela pra alguns dos meus sonhos mais loucos, aqueles que me transportam para terras mais selvagens que Sodoma e Gomorra, sem pudor algum?
Mas preciso dormir, descansar, levitar, relaxar, sei lá.
Quem sabe assim a Deusa não fica lá, parada lindamente, sensualmente, brasileiramente,  na minha porta.
Mas prefiro que ela venha dormir comigo, pra me seduzir, me acalmar, me levar ao passado através de um beijo, daqueles tipo Gable and Lombard.
Enquanto ela não vem, fumo alguns dos meus cigarros e tento fazer rimas.
Rimas essas, que podem nem ser tão originais assim, clichês desses tempos nossos, mas inspiradas por todo o amor que eu sinto pela Deusa que fica na minha porta.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Meu jeito particular de rezar

Quando eu quero orar, não me ajoelho.
Se pretendo rezar, não olho pro céu.
Não frequento igrejas ou cultos de qualquer religião.
Nem tomo passe quando a coisa aperta.
Uma Ave-Maria eu deixo pra outro dia.
Eu não creio em Deus pai todo poderoso,
Mas acredito que o universo às vezes conspira.
Quando vou chorar, não vou correndo pro banheiro,
Muito menos derramo lágrimas na pia.
Uma Hare Krishna gringa me parou na rua outro dia.
Entregou pra mim um livro de mantras.
Era em vão, mas fingi que acreditei.
Quando tô afim de rezar mesmo, prefiro uma canção.
Ligo minha vitrola, ascendo mais um cigarro e ouço o coro.
Sento na minha cadeira de praia, aumento o volume.
Fecho os meus olhos, fico em transe.
Quando tô down e preciso orar,
Não quero ler as mentiras da Bíblia.
Muito menos escutar a voz exagerada de algum falso pregador
Se é necessário manter minha fé no mundo e na vida,
É disso que eu preciso.
Uma boa dose de Jagger & Richards
Com palavras sabias, certa dose de ironia.
Estrofes mágicas, o tipo de linhas  que devem ser lidas e ouvidas.
"Nem sempre você pode ter o que quer,
Nem sempre você  pode ter o que quer,
Mas se tentar mais algumas vezes,
Você encontra o que precisa!".
Esse é meu hino.
Essa é a minha reza.
A ode da minha alma.
O único mantra que sigo.
O haicai perfeito.
O epitáfio que eu tento seguir em vida.
.

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quinta-feira, 16 de junho de 2016

A crônica do parafuso ou "A máquina"

Nós somos pequenos
Engrenagens em um sistema perverso
“O horror...o horror”
Você não se sente como um parafuso?
Você nunca entra em parafuso?
44 horas semanais
E você só é aquilo que ajuda o óleo se espalhar pelo motor
Fica feliz com tão pouco?
Um passeio no parque com a doce namorada no final de semana
Com direito a pipoca melada, vermelha, como o sangue que você derrama
Na máquina
Sabe que tá ferrado
Enquanto o homem do dinheiro assedia alguém na firma
Ele tem o poder
Você?
Apenas algum charme
Isso não basta.
Olha pro céu e vê se Deus tá lá.
Se ajoelha ou apenas tenta,
Enquanto você é sufocado no trem das 6h30.
O cara de boné e fone de ouvido te encara.
Ele também é apenas um dos pistões da máquina.
Você não liga, sabe que a culpa do aperto não é sua.
Agora briga pra passar na catraca
E começa os 20 minutos de caminhada.
Você chega suado, nem teve tempo de tomar água.
Mas a engrenagem tem que funcionar.
E, sem perceber, seu sangue já tá lá.
Em mais um dia no inferno,
Fazendo o que você não gosta.
Olhando caras que não se importam.
Toma um café pra lubrificar melhor.
Você já tá o pó.
No almoço, a marmita tá estragada.
Uma refeição na rua fica cara.
Mas e dai? A máquina nunca para.
Faz uma fé na Loteria.
No fundo sabe que esse dinheiro será desviado e vai pro bolso de quem não merecia
Já se questionou?
Gosta de se vender por alguns trocados?
É bom ser um escravo barato?
Chega o fim do expediente.
Parafuso dorme?
Mas e o sistema?
E a máquina?
Como fica agora?
Uhnnn, um prego vem pro seu lugar após às 18h.
Que negócio escroto.
Mas a máquina nunca para.
Para os donos dela, o show não pode parar.
O sistema tem que continuar.
“That's Entertainment!”
O ônibus tá cheio agora.
Mais três horas.
Você é roubado.
Relaxa, ele é apenas um parafuso solto da máquina.
Chega em casa.
Contas atrasadas.
Você vive pra isso.
Pra manutenção de um sistema falido.
Não sabe disso.
Chegou a hora de deitar.
No fim, a máquina não vai parar.
Você morreu.
Meus pêsames.
Uma coroa de flores pro seu velório.
Seu filho chora.
Sua mãe surta.
Mas amanhã, fica tranquilo.
Um outro parafuso entrará no seu lugar.
E, como você, não descobrirá
Que o sistema só quer seu dinheiro e
TE MATAR...

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Canção da guerra para eu sonhar (ou pra te encontrar)

O dia é frio e minha cabeça tá gelada.
Minhas orelhas queimam, será que é você falando mal de mim?
Quando vamos nos encontrar novamente?
“We'll meet again, don't know where, don't know when”,
já diz aquela velha canção da guerra.
Um café, alguma prosa, isso não custa nada.
Alguns cigarros apagados na calçada, um passeio na noite suja dessa cidade
Que não dorme
Nos edifícios pixaram seu nome, eu vi outro dia.
Um novo romance, alguma paixão passageira, uma foda casual.
Só pode ter sido isso.
Até penso em te ligar, quem sabe não tento falar sobre o mistério de um dia de escuridão?
Às vezes minha alma chega a queimar, como um prédio em chamas, uma Roma atual e toda rachada.
Mas ainda há uma dúvida pairando na nuvem do meu cérebro: será que vai acontecer que nem o Johnny Cash canta?
We'll meet again, don't know where, don't know when. But I know we'll meet again some sunny day.
Eu não sei.
Só sei que por enquanto apago toda a luz do meu quarto,
Quem sabe assim não volto a sonhar com aquele teu velho retrato, meio apagado, antigo.
Talvez num desses sonhos eu te vejo de novo, mesmo não sabe onde ou quando, regras básicas do jornalismo.
Mas quem sabe num dia de sol, diferente desse que nós passamos hoje, você não cruze a esquina.
Dai, na janela do meu sobrado, vou assobiar uma música nova, algo que compus na guitarra.
Assim você se inspira e, quem sabe, fica grudada na minha vida.
Mas como tudo é uma questão de encontros, é melhor seguir meu caminho.
Algum acaso pode ocorrer e, finalmente, nos vemos algum dia.

Deus estressado

Essa noite Jesus não quer sua companhia.
E nem Deus tá afim de te ouvir.
Ele deve estar ocupado criando outra paraíso superficial,
Outro planeta escroto e covarde.
Monstros habitarão lá, o que não é diferente daqui.
Jesus tá cansado, nem joga videogame mais.
Cansou das coisas que fazem em seu nome e viu que não valia a pena brincar
Até tentou zerar a fase, mas ficou complicado demais.
São Pedro perdeu uma das chaves pro céu.
Judas tentou entrar, mas foi impedido por seguranças
Richard Nixon também ficou por lá, já que não achou o Inferno legal.
Na real, ele detesta se bronzear.
Mas Deus ainda não acabou seu plano e resolveu tomar uma com o Diabo.
O Diabo na verdade é uma mulher, de curvas longas, daquelas tipo fatal.
Ela comando o “inferninho” de forma leve, sem pressão, até sorri pros hóspedes.
Elvis e Jimi Hendrix estão lá, enquanto Marlon Brando dança tango, talvez seu último.
Deus, como Jesus, ficou cansado e desistiu da humanidade.
Descobriu que é melhor passar com  o analista e se tratar, assim descobre novas possibilidades.
O estresse ferrou com Deus, ele já não aguenta mais tanta autopiedade das pessoas.
Diz que em um mundo tão cruel, é impossível existir uma alma completamente boa.

É melhor jogar sinuca e ficar sentado no paraíso à toa.

Chuva da madrugada

4h da manhã
Acordo com o barulho do trem e ligo o rádio.
Toca “You belong to me” na voz do Bob Dylan.
Minha cabeça dói pra caralho.
Talvez seja por causa da bebida.
Já não bebo há um mês, mas mentalmente não sinto falta.
Meu último cigarro queima no cinzeiro do canto da cama.
Cama dura e fria, que aguenta o meu corpo durante algumas noites de insônia.
Penso em escrever uma carta pra você, mas quem lê cartas em tempos tão rápidos e confusos como esse?
Não há romance mais, só um pouquinho de sexo após um drink qualquer,
Em dias frios como os últimos, a vida pode ser um inferno.
Realmente durona.
Melhor calçar as minhas botas e fazer a barba.
Na previsão diz que chove, mas não há água que molhe e cure uma cabeça cansada.
Então o que posso fazer e pegar meu guarda-chuva, correr para o primeiro ônibus e cair na estrada

O BURACO

Olhei no espelho e vi um buraco na minha porta
Não sei que merda é, mas há um vazio lá
Algo vago, mas não consigo descobrir o que é
De noite esse furo vai ficando maior, mais escuro
Talvez fique cansado, já que é quase madrugada
Olho de novo pro espelho e dessa vez não vejo nada
Meus olhos doem agora, apesar de todas as luzes apagadas
Há algo exposto, sangrando, mas só consigo sentir
Tento acender uma luz pelo menos, não vejo nada ainda
Vou me aproximando do buraco, quase o tocando
Encostado, chegando bem perto, caio
Descubro o que o buraco é: um reflexo de uma alma vazia

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Dirigindo a noite toda

O mundo é uma merda a maior parte do tempo, mas de vez em quando vale a pena viver. Aproveitar o ar, fumar um cigarro no parque, ver as garotas correndo ou assistir os velhos jogando dominó. Pare pra tomar uma cerveja também. A vida só vale a pena se tomar uma cerveja, cara." Ele dizia isso com sabedoria e para todos do bar ouvir. Tinha uma áurea estranha, não era alegre ou pesada, apenas diferente. Através das entradas dos seus cabelos o suor escorria. Devia ter no máximo 50 anos, mas aparentava uns 80. O barman disse que o cara era taxista e sempre ia lá depois do expediente. Hoje tinha ido mais cedo, mas tomava apenas café. Resolvi ver se o cara fazia mais uma corrida, eu estava cansado, na pior parte da cidade e precisava ir pra algum lugar com cama e me deitar. O cara topou, mas não perguntei seu nome e só disse que queria ir para algum hotel. E logo começou a puxar assunto: "4h45 da manhã. Hora de fechar a casa. Pra muitos é o começo de um novo dia, eu tô é finalizando o meu. Sempre acabo no lado sujo da cidade, onde as putas, os viciados e os marginais ficam. Aqui você encontra tudo que a sociedade finge desprezar, mas adora no final. Todo mundo gosta de farra, putaria pesada, manja? Mas eles são meus clientes mais fiéis, os que mais ficam quietos também. Eu detesto gente que fala demais. Um tio meu diz que os motoristas adoram quando o passageiro fala, mas se eu pegasse um cara igual esse meu tio como cliente, bem, já tinha jogado pra fora do carro. Muita falação me desconcentra, principalmente quando começam a falar sobre política ou religião. Tenho minhas opiniões e ninguém muda isso. Mas foda-se, o expediente tá acabando e vou tomar uma cerveja. Gosto das fortes. Quando a noite é pesada ainda tomo uma "maçã" pra relaxar. Um dia um cara começou a cheirar no banco do carro. Pinta de playboy pra caralho, branquelão, todo no social. Tinha até cara de ser judeu ou era italiano, sei lá que porra que aquele filho da puta era. Sei que depois de dar um puta tiraço, o puto virou pra mim e pediu pra eu seguir pra uma daquelas casas de recreação adultas. Levei ele há uma delas. O bichão já tava cavernoso, todo se retorcendo e falou que não ia pagar a corrida. Desci do carro e meti a mão no filho da puta. Chutei bastante aquele rabo branco, mas vi que o sapatos do cara eram Armani. Quer saber? Não pensei duas vezes, peguei pra mim. O puto deve tá se retorcendo até agora com os "pezinho" gelado. Esse dia foi foda. Foi umas três pingas pro bucho. Hoje, graças a Deus, foi tranquilo, só levando um monte de doutor pro aeroporto. É bom, porque pagam direito e ficam no celular o caminho todo e, desse jeito, poupo saliva. Já fui motorista particular, mas quis ter o meu próprio negócio e comprei uma lotação. Ganhei uma puta grana, mas aí veio aquela prefeita e tomei no cú. Mas é a vida. Agora tô tentando relaxar, mas no rádio tá tocando essa do Springsteen, Drive All Night. "Quando eu te perdi, acho que perdi os meu culhão também", é o que ele diz. Talvez seja a história da minha vida, mas relaxa, não vou aumentar o volume. Eu tive uma mulher por um tempo. Ela era independente o bastante, do jeito que eu gosto, mas essa vida aqui fez eu me afastar dela. Acho que toda a porra de estresse que esse trampo dá, todos os engarrafamentos, a merda toda, eu acabava descontando nela, um mulherão. Era professora e adorava criança, mas não tivemos filhos, pro meu azar e sorte dela. Sei que ela casou. Acho que com um antigo namorado ou algum professor amigo. Sei lá, só sei que quando ela foi embora doeu pra caralho, fiquei mal. Até achei que ia morrer. Mas o volante e Deus não deixaram. Continuo rezando desde então. Funcionou uma vez, deve continuar funcionando. Hoje eu moro numa pensão, aluguel barato e poucos problemas, a não ser a noiarada que fuma embaixo da minha janela. Mas ás vezes o fim da noite é frio, triste, até mesmo melancólico e aqui, tomando minha cervejinha e escutando essa música, o pensamento vai longe. Como ele diz na parte principal, dirigiria a noite toda pra comprar novos sapatos praquela mulher e, se ela ainda quisesse, provar de seus carinhos. Mas ela não quer e o taxímetro não pode parar. Quem sabe na próxima corrida? Talvez, mas aí vai ser Bandeira dois , né não, doutor? A vida já me cobrou mais caro, talvez eu devesse cobrar também. Mas é isso aí, doutor. Chegamos no seu destino, já falei demais. Essa é por minha conta, não precisa mexer no bolso, fui com a tua cara. To sempre ali no centro e precisando, já sabe. Fica com Deus e até a próxima." Só agradeci e entrei no hotel. Fiquei pensando no que o cara falou a noite toda. Fui abandonado cedo, criado por um cara que eu achava que era o meu pai. Minha mãe era professora e morreu no último ano. Não andava legal, mas conversar com esse taxista me fez bem, principalmente descobrindo que ele é o meu verdadeiro pai. É, cara, o mundo é uma merda na maior parte do tempo, mas vou seguir os seus conselhos. Fique em paz, cara, fica em paz. 


POR GABRIEL CAETANO (setembro/2015 - inspirado na canção que ilustra o post)

SER

Eu queria ser Lou Reed
Pra pegar carona num ônibus cheio de fé
E me mandar.
Eu queria ser o Belchior
Só pra gozar no seu céu, no seu inferno
E ficar todo sujo de batom.
Eu queria ser o Cohen
E, quem sabe,
Da sua caverna desfrutar
Eu queria ser Gregory Corso
Assim não jogava meu humor na janela
Eu queria ser o Sam Shepard
Só pra te cruzar em alguma esquina
Eu queria ser o Dylan
Tomaria mais um copo do seu café,
Pra depois partir
Mas por enquanto eu sou eu,
Preso a sombra no chão da rua
Sentindo o frio na minha espinha,
Pra, quem sabe, assim,
Pegar uma rima boa na maré
E tentar escrever poesia.

POR GABRIEL CAETANO

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Como uma daquelas velhas canções do Neil Young




Às vezes sentimos um frio dentro d’alma, sabe como é. Pensamos nos tempos, dias, meses, anos ou horas que perdemos por aí. Circulamos por aí, sem saber o que queremos, o que vamos encontrar. O que esperar do futuro? Uma incógnita ou alguma benção de um padre bêbado na madrugada, mais perdido do que você mesmo. Vivemos numa época difícil, dura, sem sentido. Temos voz, mas não sabemos quais palavras devemos usar. Nossa união não faz mais força alguma, pelo contrário, só causa destruição. Qual é o argumento que posso usar, o que posso te ofertar de bom de dentro de mim? Eu não sei. Quero somente poder deitar, olhar pro céu, ter uma pequena visão do paraíso. Lá deve ser igual a algumas músicas do Neil Young, com uma lua cheia onde podemos dançar. Um mundo livre. Entre a fogueira, vamos nos sentar, e vou ter a oportunidade de sentir a sua alma, ver se ela é igual a um vulcão. Pegarei minha guitarra, dedilharei algumas notas, só pra sentir o tempo passar.  Veremos cavalos loucos correndo pelos campos, enquanto Cadillacs quebrados ficam à deriva na estrada. O rock’ n’ roll não vai morrer, pelo menos enquanto os ventos na planície continuarem constantes. Será a minha oportunidade de observar o seu lindo cabelo loiro balançar. Acenderemos alguns cigarros, ficaremos fora toda semana, enquanto Marlon Brando e Pocahontas ficam conversando. Como uma vaqueira na areia, você comandará todo o lugar, afinal, sua beleza natural e seus gestos fortes bastará. Talvez haverá uma praia lá, um rio, onde sentiremos o cheiro da água doce. Mas enquanto a gente não consegue viver numa dessas canções do Neil Young, vamos continuar buscando o nosso coração de ouro.

POR GABRIEL CAETANO