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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Meu jeito particular de rezar

Quando eu quero orar, não me ajoelho.
Se pretendo rezar, não olho pro céu.
Não frequento igrejas ou cultos de qualquer religião.
Nem tomo passe quando a coisa aperta.
Uma Ave-Maria eu deixo pra outro dia.
Eu não creio em Deus pai todo poderoso,
Mas acredito que o universo às vezes conspira.
Quando vou chorar, não vou correndo pro banheiro,
Muito menos derramo lágrimas na pia.
Uma Hare Krishna gringa me parou na rua outro dia.
Entregou pra mim um livro de mantras.
Era em vão, mas fingi que acreditei.
Quando tô afim de rezar mesmo, prefiro uma canção.
Ligo minha vitrola, ascendo mais um cigarro e ouço o coro.
Sento na minha cadeira de praia, aumento o volume.
Fecho os meus olhos, fico em transe.
Quando tô down e preciso orar,
Não quero ler as mentiras da Bíblia.
Muito menos escutar a voz exagerada de algum falso pregador
Se é necessário manter minha fé no mundo e na vida,
É disso que eu preciso.
Uma boa dose de Jagger & Richards
Com palavras sabias, certa dose de ironia.
Estrofes mágicas, o tipo de linhas  que devem ser lidas e ouvidas.
"Nem sempre você pode ter o que quer,
Nem sempre você  pode ter o que quer,
Mas se tentar mais algumas vezes,
Você encontra o que precisa!".
Esse é meu hino.
Essa é a minha reza.
A ode da minha alma.
O único mantra que sigo.
O haicai perfeito.
O epitáfio que eu tento seguir em vida.
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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Passando uma noite com os Stones e vendo que as pedras ainda rolam (e os dados também)

Não é qualquer dia que o Morumbi treme, dando a impressão que o estádio pode desmoronar a qualquer momento. Poucas coisas causam isso. Uma final de Libertadores, um clássico paulista ou talvez quando os Rolling Stones tocam (I Can't Get No) Satisfaction. Essa última alternativa pude comprovar pessoalmente e só de me lembrar, os pelos dos meus dois braços se arrepiam e olha que a música mais conhecida da banda está longe de ser uma das minhas favorita - que são All About You, do disco Emotional Rescue, a sacana Let It Bleed e o mágico mantra You Can't Always Get What You Want. A sensação beirava o primeiro orgasmo, aquele do início da puberdade, ou o primeiro cigarro, mesmo que ele seja um Shelton comprado solto em algum botequim podre de uma esquina de São Paulo. Pode parecer sujo, mas são as coisas mais próximas que vem na minha mente.

Do riff crú de Jumpin' Jack Flash ou ao ver a chuva começar justamente quando Mick Jagger canta a primeira estrofe de Gimme Shelter, aquela que fala sobre uma tempestade chegando, você não acredita que está ali vendo uma boa parte da história do blues e do rock' n' roll na sua frente, tocando todas aquelas canções que quando você tomou aquele porre por conta de alguma gata ou saiu pra uma noitada incrível com os amigos escutou a exaustão. Simplesmente sua mente se teletransporta e a conexão com aqueles caras no palco é automática. É a magia da música em ação.

Keith Richards, Mick Jagger, Ronnie Wood e Charlie Watts não estão lá só pela grana e nem para mostrarem que são mais ligeiros que muitos jovens. Eles sobem ao palco para sentirem o ar, aquela brisa na cara, o sangue fluindo pelas veias, deixando o suor escorrendo por lugares impróprios. Os "velhos" querem sentir a vida pulsando o mais forte possível e dividir isso com o público. Uma lição aprendida com os finados gênios Muddy Waters, B.B. King e Chuck Berry, na estrada até hoje - graças aos Deuses do Rock. É uma energia inexplicável, sabe aqueles ápices de nossa jornada nesse planeta? É isso.

Passado dois dias após o fascinante 27 de fevereiro de 2016, continuo hipnotizado e não acreditando que estive lá, sentindo as lagrimas em meus olhos com o mestre "Keef" sussurrando os versos de Slipping Away, pra mim, o grande momento da noite. Foram 21 anos sonhando em ver esses caras ao vivo e finalmente o dia chegou. Como uma canção do último disco solo de Ronnie Wood, posso dizer sem nenhuma dúvida: Sim, sou um cara de sorte. Vida longa aos Rolling Stones, esses alquimistas contemporâneos que mantém a chama do rock'n' roll viva na alma de cada um de nós. Obrigado por uma noite mágica, mestres, e que as faíscas continuem voando por aí. Até o próximo adeus (ou Bis)! ‪#‎StonesSãoPaulo‬