Não sou artista
Não faço arte
Não sou escritor
Muito menos jogador
Não sou pugilista
Sempre fujo de qualquer briga
Não bebo
Só tomo um trago
Não faço amor
Apenas dou uns amassos
Não me apaixono
Apenas tiro proveito dos minutos com você
Não sei fingir, disfarçar a dor
Faço peças, mas não sou ator
Talvez seja o drama de um bom poeta
Ou o suor de algum trabalhador
Não falo francês
Mas sussurro em seu ouvido
Com sotaque latino
Em meu bom português
Danço com o vento
Mas continuo isento
Quando o assunto é política
Falo aquilo que penso
Mas quem eu sou
Me diga, por favor
Se sou a ponte, o caminho, o seu amor
Se sou a água, a onda que bate no teu corpo
Um oceano aberto, mas próximo a um deserto
Onde os sentimentos não dizem nada
Onde o que vale é a palavra falada
Algum olhar, uma piscadela
A dança das bailarinas peladas
Que giram suas pernas cheias de graça
Olhando para os velhos que ficam sentados na praça
Ou os velhos discos do garoto que espera o ônibus
Mas diga logo, tenho pressa
Uma brisa vai passar
Vai me apanhar
E vou desaparecer
Não dá mais, não posso esperar
Me diga o que sou, por favor
Noites de tormenta
Uma busca a lugar nenhum
Rostos insones pela madrugada
Talvez eu seja mais um
Das nuvens negras lá no céu
Espero clemência e perdão
Me ajoelhando diante do nada
Por um momento de fé ou razão
Autopiedade nunca foi o meu forte
Mas às vezes sei o trapo que estou
Bebendo em todos os bares
Muito menos sabendo quem sou
Arrumo o meu óculos à la Mastroianni
Coloco um cigarro no canto da boca
Procuro nas avenidas escuras
Esbarro em uma multidão louca
E nos becos dos mendigos
Tento te achar com afinco
Mas nada consigo encontrar
Sei que você não está lá
Mesmo sem fé ou razão
Mesmo não querendo o perdão
Tentando acreditar em Cristo
Até mesmo, quem sabe, no destino
Continuo a te procurar
Mas na minha agenda de telefones
Seu número já não está
E cada dia do mês
Em cada sono profundo
Cada vez mais aflito
Fico tentando sonhar
Com o dia em que vou te encontrar
Algumas músicas beiram a perfeição. É o caso de San Diego Serenade, presente em The Heart of Saturday Night, clássico de Tom Waits. Acho que se você ouvir, vai compartilhar do mesmo sentimento que eu sinto. A letra e música abaixo:
Nunca vi a manhã até ficar acordado a noite toda Nunca vi a luz do sol até você apagar a luz Nunca vi minha terra natal até ficar longe por muito tempo Nunca ouvi a melodia até precisar da canção Nunca vi o meio-fio a até te deixar pra trás Nunca soube que precisava de você até estar encrencado Nunca disse "Eu te amo" até te amaldiçoar em vão Nunca senti o meu coração até quase ficar insano Nunca vi a costa leste até mudar-me para o oeste Nunca vi o luar até ele brilhar fora do seus seios Nunca vi o seu coração até tentarem roubá-lo, roubá-lo de mim Nunca vi suas lágrimas até escorrerem pelo seu rosto Nunca vi a manhã até ficar acordado a noite toda Nunca vi a luz do sol até você apagar a luz Nunca vi minha cidade natal até ficar longe por muito tempo Nunca ouvi a melodia até precisar da canção
Eu tô perdido e confuso,
Sozinho num caminho louco,
Não aceita cartão de débito por aqui.
Não sei o que fazer, muito menos sentir,
Queria ser como Van Morrison,
Perfeccionista ao extremo,
Te escrever uma canção,
Ver se o solo de sax tá certo,
Te agarrar, te sentir.
Mas sou um intruso,
Um covarde, que todos os dias,
Todos os dias, queria dar um “olá” pra ti.
Pode parecer bobagem, uma loucura irreal,
Mas, desde que conheci você, te vi,
Tudo que desejo são noites quentes,
Sua cabeleira loira, seu cheiro,
E seu corpo todo, todo pra mim.
Sei que não tô rimando,
Nem tenho inspiração pra tanto,
Mas queria você aqui.
Queria você me afagando a dor,
Fazendo trapézio da minha solidão,
Me amando como sou.
Não sou um infeliz,
Muito menos imbecil,
E, talvez, tô esperando um anjo louro,
Que me traga algum tipo de conforto,
E que, de certa forma, ore por mim
Não vou chorar e sofrer.
Sei que seu caminho é longo,
E eu tô perdido, perdido no meu destino.
Gritando contra a dor, procurando seu amor.
E, do nada,
Você pode surgir aqui pra mim,
Cheia de dúvida e certo rancor,
Com velhos receios,
Quem sabe sem medos,
Pronta para ser, apenas,
Meu eterno anjo do amor.
Sente-se e tome alguma bebida.
Sei o quanto é difícil ficar a vontade,
E o meu papo até parece música,
Música de má qualidade, é claro!
Tente relaxar, de verdade.
Esquece o calor que tá lá fora
E de todos sonhos perdidos outrora.
Daquela gente com coração frio,
Querendo sucesso a qualquer preço,
Sem se importar em amar.
Almas nem tão vazias,
Mas tristes, perdidas,
Sem nenhuma luz pra brilhar.
Encoste o seu corpo com o meu.
Pele com pele, é bem melhor assim.
Fica tudo mais fácil.
Deixa eu beber esse suor repleto de medo.
Com gosto da dúvida e certo receio ao se entregar.
Tolos no amor. Eles são tão recorrentes, seja em canções, poesias, romances ou numa péssima novela da televisão. Tolos no amor são vistos em cada esquina, no bar que você bebe a fiado, no supermercado, abastecendo as gôndolas de frutas. Tolos apaixonados estão em todos os cantos, em todas as cidades, talvez até esteja no seu quarto. Às vezes, pela manhã, você veja um deles no espelho ou lá, esquecido no porta-retrato. Não é só em Paris que um bêbado se ajoelha pra sua puta preferida e implora o amor. Não é só na igreja que existem pessoas fazendo promessas pra São Judas Tadeu dar uma forcinha pro coração. Num desses aplicativos de paquera, bem na tela do seu celular, um deles vai estar lá. Até Sam Shepard, um tremendo dramaturgo e poeta, com grandes conquistas, é um tolo no amor e escreveu sobre isso. Olhe em sua baia do escritório e verá pelo menos cinco deles - esse termo baia é tão animal. Mas não vamos perder o foco, afinal, estou disposto a me ajoelhar em sua frente, implorar, chorar, me descabelar, andar pelado no Viaduto do Chá na madrugada, e tudo isso só por uma razão: sou um tolo no amor, como todos os outros, como todos os humanos, e estou aqui somente pra te amar. Seja por míseros minutos na cama de um quarto sujo em um hotel nas redondezas da Amaral Gurgel, onde minha forma de amar sexual encontrará o seu corpo nu e branco, seja em sua cama, onde os gatos soltam pelos durante o sono interminável da tarde. E estou disposto a fazer isso horas e horas, dias e dias, meses e meses, anos e anos. Que banal e repetitivo eu sou. Mas me perdoe, sou apenas mais um tolo no amor.
Muitos diriam que em música de Bob Dylan não se mexe. Talvez estejam certos, mas Brian Ferry, o autor e interprete da clássica balada de motel brega-romântica "Slave to Love" e ex-vocalista da sensacional Roxy Music, revisitou algumas músicas de Dylan em seu " Dylanesque". Por incrível que pareça, no caso de Simple Twist Of Fate, Ferry conseguiu superar a versão original, dando um calor a mais para a canção - que é uma das mais simples e belas de Bob Dylan. Se não acredita nisso, escute nessa versão ao vivo maravilhosa (a letra está logo abaixo):
Sentaram-se os dois no parque um dia
Enquanto o céu da tarde escurecia,
Ela o olhou, e ele sentiu que o consumia
Uma chama - até os ossos.
Sentiu-se então só e com remorsos
Por ter cometido tanto desatino
E esperou por uma simples guinada do destino.
Caminharam ao longo de um velho canal
Um pouco confusos, eu bem me lembro
E pararam num hotel estranho com uma luz de neon a brilhar.
Ele sentiu o calor da noite atingi-lo como um trem de carga
Se movendo com uma simples guinada do destino.
Um saxofone ao longe, tocou
Enquanto ela, pela arcada, caminhou.
Enquanto a luz, por um candeeiro surrado, jorrou
Onde ele estava acordando,
Ela acabou então jogando uma moeda ao cego no portão
E esqueceu a guinada do destino, então.
Ele acordou, o quarto estava vazio
Ele a procurou, mas em lugar algum a viu.
Pensou que não se importava e abriu a janela de par em par,
Sentiu um vazio nuclear com o qual não podia se relacionar
Trazido por um simples, porém fatal guinar.
Agora só ouve relógios a tiquetaquear
E anda com um papagaio que sabe falar,
Persegue-a pelas docas - à beira mar
Onde marinheiros descem do convés.
Talvez ela o escolha uma outra vez.
Mas, quanto tempo terá que esperar
Mais uma vez, para seu destino mudar?
As pessoas me dizem que é pecado
Saber e sentir de modo exagerado.
Que ela era minha alma gêmea, tenho acreditado, mas, perdi essa aliança e a era.
Ela nasceu na primavera, mas, eu nasci tarde demais