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sexta-feira, 2 de junho de 2017

A garota do fusca branco

A garota do fusca branco
Vê um mundo diferente 
através dos aros grossos 
de seus óculos
A garota do fusca branco
não pergunta como você está
pra ela pouco importa
o negócio é deixar rolar
A garota do fusca branco
curva o corpo enquanto está no volante
e nem olha no retrovisor
tem medo de ficar presa em algum
momento distante, algo que não vale lembrar
A garota do fusca branco
tem cabelos curtos e escuros
e sente frio o ano inteiro
inclusive no doce sol de fevereiro
quando o carnaval costuma reinar
A garota do fusca branco
tem sonhos, mas pisa rápido no acelerador
não pode deixar o motor da vida afogar

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Coração Valente na cidade

Eram quase 15h30, a chuva não parava, a luz na empresa já tinha apagado duas vezes e o desespero bateu. Tinha medo de não conseguir atravessar a Av. do Estado e ficar ilhado na Zona Sul de São Paulo. Saiu do serviço, arrancou a camisa e com suas botas de couro enfrentou as poças altas que há no Ipiranga. Foi o segundo dia desse pequeno desafio. Enfrentando toda a tempestade, conseguiu atravessar a avenida e observou que o rio estava a ponto de transbordar. Chegou na estação de trem da região, os portões estavam fechados. Colocou sua camisa de volta e junto com outros usuários do transporte público, convenceu a funcionária da CPTM abrir os portões. Uma senhora gritou que ia chamar o Choque, a tropa de elite da polícia paulista, para abrir a passagem, mas ele a avisou e afirmou: "É mais fácil eles baterem na gente, querida!" Conseguiu entrar, mas foi impedido por dois seguranças ao acesso para o seu destino final. A desculpa era que havia confusão e teria que esperar. Nisso, um cidadão mais esperto do que ele, falou que morava do outro lado, depois do outro acesso. Ele ficou furioso e falou para o guardinha que se a regra valia para o cara, também era o correto pra todos. Conseguiu impor algum respeito e o guarda liberou o acesso ao outro saguão. Chegando lá, a situação era tranquila, diferente do relatado, e se agarrou a catraca, como se ela fosse a mulher mais sexy do mundo. Foram longas quatro horas de espera, uma ansiedade interminável, afinal, não havia trem. O saguão lotava mais, seu jeans molhado pesando quilos, nenhuma informação ou aviso da companhia responsável pelo serviço, mas ele viu que, na surdina, duas garotas passaram a catraca. Sua vontade de fumar era imensa e de ir embora dali mais ainda. Em um surto de segundos, ele se abaixou, chutou um dos cavaletes e conseguiu passar, não se importando com os guardas, nem com os funcionários. Se sentiu William Wallace, personagem de Mel Gibson em Coração Valente. Escutou a estação lotada vibrar e como um jogador de rugby, passou pelos guardas. Olhou para trás e viu a multidão fazendo igual. Um momento inesquecível, quase glorioso. Já na plataforma, acendeu seus cigarros e viu um homem que pega o mesmo vagão que ele há quase dois anos iniciar uma conversa pela primeira vez. Em cerca de 20 minutos o trem veio após a longa espera e, surpreendentemente, vazio. Se colocou ao lado da porta e ficou até ás duas estações seguintes, seu destino final."

(Escrito após uma chuva torrencial do ano de 2015)

sábado, 8 de outubro de 2016

Prateleiras

Sentados no parque em um dia de verão.
Mãos com mãos, como se o destino
não reservasse algum final pra aquilo.
Ele dizia que estaria lá a qualquer momento,
a qualquer hora.
Ela custava em acreditar, mas decidiu viver
o clima, aproveitar esse pouco de tempo.
Talvez o que mais ele precisasse era saber que
ela não o queria da mesma forma que ele.
Mas, apesar disso, os dois se olhavam nos olhos,
compartilhavam sorrisos.

Ele sabia que ela era mais esperta.
O cara era um verdadeiro pateta.
Dizia para os amigos que, finalmente,
tinha encontrado sua Cinderella.
Que negócio mais brega.
Ela era mais centrada, direta.
Não vivia em mundos de fantasia,
Muito menos acreditava em amores
pra toda vida.
Tinha certeza que encontraria uma nova paixão,
num momento incerto, nas prateleiras de uma livraria.

Ele ligava pra ela todos os dias.
Era um grude, um porre.
Ela continuava por lá,
Nem sabia o motivo,
Mas queria testar sua sorte.
Acreditava nos olhos de ternura dele,
mesmo sabendo que logo deveria partir.
Ele sofreria, a amaldiçoaria
e ela só queria ser feliz,
mesmo com seus olhos
repletos de melancolia.

Naquele dia no parque,
resolveu dizer toda a verdade.
Disse que não o amava, não precisava viver aquilo.
Gostava de ser só e de suas próprias ideologias.
Ele não caiu em prantos, nem jogou praga.
Disse que entendia perfeitamente,
não queria nenhum tipo de briga.
Ela se surpreendeu, não imaginava essa reação.
Na verdade, ele só estava tentando ser durão.

Nos meses seguintes, ele sofreu.
Bebeu em todas as espeluncas da Rua Augusta.
Passou vexame em todos os restaurantes onde comia.
Até que uma hora caiu na real e viu que isso não resolvia.
Deveria era seguir a vida.
Resolveu comprar um livro idiota de autoajuda,
daqueles repletos de frases sobre o destino
E que não resolvem porra nenhuma.
Ela sobreviveu, era forte.
Não precisava de nenhum homem ( que mulher precisa?).
Se sentia confortável sozinha, até mesmo resolveu
aprender gastronomia.
A cozinha era sua nova paixão,
mas precisava renovar o estoque de receitas.
Resolveu sair de seu novo endereço
e ir até a livraria da esquina.
Perguntou ao vendedor onde ficava
os livros de culinária.
Mas o destino, um infiel companheiro,
Novamente a surpreenderia.
Afinal, entre as prateleiras,
ela avistou ele.
Ele riu e foi até o seu encontro.
Nesse momento, apesar de patético,
ela descobriu que ele, por mais idiota que seja,
poderia ser o amor de sua vida.


Anos depois, apesar de muitas luzes
terem se apagados.
Eles estavam juntos. construíram um sobrado.
Ele amadureceu, compreendeu um pouco
dos mistérios da vida.
Ele havia mudado.
Ela continuava a mesma, só que agora cozinhava
E entendia o que ocorria.
Não queria mais ficar sozinha, cansou da velha rotina
E, no final da noite, ao som de um velho standard de jazz,
os dois dançavam, mas tinham pressa.
Precisavam ir logo pra cama, queriam fazer amor.
Agora eram sinceros um com o outro, diferente do passado,
afinal,descobriram sobre as surpresas que a vida prega.