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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Anita



Loira, magra, alta, sexy e perigosa. Essa talvez seja uma boa descrição de Anita Pallenberg, um dos grandes ícones da beleza feminina nos anos 60. Italiana de nascença, mas com o sangue germânico fluindo nas veias, Anita participou de toda efervescência cultural daquela época. Era super-modelo antes do termo existir. Estava em Roma quando Federico Fellini filmou "A Doce Vida". Se tornou amiga de Pier Paolo Pasolini. Atuou no cult "Barbarella" e foi uma das frequentadoras assíduas da Factory de Andy Warhol. Era uma intensa conhecedora de artes. Se não bastasse isso, ela é uma das principais musas do Rock'n'Roll. Anita foi namorada de Brian Jones, o fundador dos Rolling Stones, e a primeira esposa de Keith Richards - sujeito que dispensa apresentações. 

Brian Jones tinha fama de ser um escroto com mulheres. Engravidou várias, abandonou os filhos e gostava de dar porrada nas parceiras. Isso não deu certo com Anita. Segundo Keith Richards, que presenciou algumas tentativas de agressão, ela não deixava barato. Metia o braço sem dó em Jones, que sempre aparecia com um olho roxo por aí. A relação foi desgastando e Brian cada vez mais se isolava nas drogas - ele se achava um gênio. O amigo Keith foi tentar salvar seu parceiro de banda, viu que não tinha jeito e se apaixonou pela mulher do cara, que correspondia na mesma medida. Brian logo apareceria morto em uma piscina, já Anita e Keith resolveram embarcar numa das mais loucas viagens de amor e heroína da história. 

Foi ela que inspirou Richards a escrever os primeiros versos de Gimme Shelter, talvez o maior clássico dos Stones após Satisfaction. Keith estava em seu apartamento, puto da vida e com a certeza que Mick Jagger tentava seduzir a sua mulher. Eles estavam filmando "Performance", um filme esquecível de 1969, num total clima de loucura, tensão e lisergia. O diretor Donald Cammell forçava uma atmosfera sexual entre Jagger e Anita, enquanto Keith pensava em diversas hipóteses. Foi aí que surgiu a frase “ Uma tempestade se aproxima ameaçando minha própria vida hoje”. O resto, incluindo o possível affair entre Pallenberg e Mick, virou história e até mesmo uma briga recente. Em sua autobiografia, Keith fala que Jagger pode até ter dormido com sua ex, mas como tem um pintinho pequeno, não caiu nas graças da fervorosa Anita. Tal descrição íntima rendeu um pedido de desculpas na imprensa por parte de Keith.

Anita teve três filhos com Richards, inclusive uma menina que faleceu 10 semanas após o parto. Durante e depois do casamento, foi se afundando cada vez mais na heroína. Em 77 um namorado de 17 anos se matou em sua cama. Nos anos 80 foi para clínicas de reabilitação. Na década de 90 foi estudar moda. Mas a heroína, muito além dos dentes, cobrou seu preço. Além de várias recaídas, diversos problemas no quadril forçaram o uso de uma bengala. A Hepatite C também fez parte do dia a dia, assim como o AA. Hoje Anita se foi. A bateria do seu relógio acabou. O mundo não só perdeu um de seus grandes ícones fashions, perdeu uma mulher forte, que chutou várias portas contra a caretice. Anita era a musa mais selvagem da história do Rock'n'Roll e sempre será, como uma tempestade vindo ameaçar a vida de alguém.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Deixa sangrar (pra um guitarrista que eu conheço)

Hey, cara solitário,
Eu entendo você.
Pegou sua guitarra,
resolveu seguir a estrada.
Decidiu jogar.
No apartamento no centro,
aquele que você morava,
nada mais tinha graça.
Seu companheiro de quarto se foi.
A mulher que te amou um dia,
resolveu sair da tua vida
e não quer mais voltar.
O que sobra?
Velhos discos de blues,
um riff à lá Bo Diddley
e lágrimas no chão de taco.
É melhor pegar a estrada.
Sem destino, sem medo e sozinho.
Sabe, eu te admiro.
Com seu jeito durão de bom coração,
Surfista velho e solitário,
que chora com músicas de outra geração.
Hoje você tá no Sul, amanhã vai pro mar.
Tentando pescar alguma coisa boa pra vida,
Oh, desregrada vida,
Vida essa que você sempre levou.
Não adianta arrependimentos,
nem a cachaça barata que você é adepto.
As cicatrizes estão no seu corpo
e você tá cansado de dar porrada.
I'll never be your beast of burden
My back is broad but it's a hurting
Você tocou essa canção algumas vezes
e foi pra todas as mulheres que cruzaram teu caminho.
Troca o disco, muda o acorde, se levante, maldito.
O público quer escutar suas notas,
quer chorar te ouvindo.
Vendo você sangrar sobre o palco,
sentindo a harmonia crua da sua guitarra,
E percebendo que tudo é só uma viagem alucinada
até a morte chegar,
Vai, guitarrista solitário,
Pega a guitarra só mais uma vez,
E como os mestres sabiamente disseram,
Deixa sangrar.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Obrigado por tudo, Mestre Scotty

O dia de hoje poderia ter sido perfeito, se não fosse a triste notícia que acabei de ler. Scotty Moore, um dos homens responsáveis por definir o som da guitarra rock'n'roll morreu hoje. Scotty, dependendo da versão da história, é o homem que criou o rock'n'roll juntamente com Elvis e Bill Black nos estúdios da Sun Records, em Memphis. Moore, assim como Chuck Berry, inspirou gerações de jovens a tomar coragem pra começarem arranhar uma guitarra. Pergunte a Keith Richards, Clapton, Robbie Robertson ou ao "mutante" Sérgio Dias qual foi a sensação ao ouvirem a guitarra desse cara. Tudo começou por conta do som que eles criaram em 54. Alguns segredos do modo de tocar de Scotty até hoje são mistérios. Scotty Moore, além de genial guitarrista, foi o primeiro empresário de Elvis. Nenhum texto ou crônica inscrita, por quem quer que seja, fará justiça ao legado desse cara. Mais um herói que se vai. Uma pena que eles não sejam imortais, como todos os acordes que deixam. Obrigado pelo meu rock'n'roll de todos os dias, Scotty!

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Meu jeito particular de rezar

Quando eu quero orar, não me ajoelho.
Se pretendo rezar, não olho pro céu.
Não frequento igrejas ou cultos de qualquer religião.
Nem tomo passe quando a coisa aperta.
Uma Ave-Maria eu deixo pra outro dia.
Eu não creio em Deus pai todo poderoso,
Mas acredito que o universo às vezes conspira.
Quando vou chorar, não vou correndo pro banheiro,
Muito menos derramo lágrimas na pia.
Uma Hare Krishna gringa me parou na rua outro dia.
Entregou pra mim um livro de mantras.
Era em vão, mas fingi que acreditei.
Quando tô afim de rezar mesmo, prefiro uma canção.
Ligo minha vitrola, ascendo mais um cigarro e ouço o coro.
Sento na minha cadeira de praia, aumento o volume.
Fecho os meus olhos, fico em transe.
Quando tô down e preciso orar,
Não quero ler as mentiras da Bíblia.
Muito menos escutar a voz exagerada de algum falso pregador
Se é necessário manter minha fé no mundo e na vida,
É disso que eu preciso.
Uma boa dose de Jagger & Richards
Com palavras sabias, certa dose de ironia.
Estrofes mágicas, o tipo de linhas  que devem ser lidas e ouvidas.
"Nem sempre você pode ter o que quer,
Nem sempre você  pode ter o que quer,
Mas se tentar mais algumas vezes,
Você encontra o que precisa!".
Esse é meu hino.
Essa é a minha reza.
A ode da minha alma.
O único mantra que sigo.
O haicai perfeito.
O epitáfio que eu tento seguir em vida.
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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Passando uma noite com os Stones e vendo que as pedras ainda rolam (e os dados também)

Não é qualquer dia que o Morumbi treme, dando a impressão que o estádio pode desmoronar a qualquer momento. Poucas coisas causam isso. Uma final de Libertadores, um clássico paulista ou talvez quando os Rolling Stones tocam (I Can't Get No) Satisfaction. Essa última alternativa pude comprovar pessoalmente e só de me lembrar, os pelos dos meus dois braços se arrepiam e olha que a música mais conhecida da banda está longe de ser uma das minhas favorita - que são All About You, do disco Emotional Rescue, a sacana Let It Bleed e o mágico mantra You Can't Always Get What You Want. A sensação beirava o primeiro orgasmo, aquele do início da puberdade, ou o primeiro cigarro, mesmo que ele seja um Shelton comprado solto em algum botequim podre de uma esquina de São Paulo. Pode parecer sujo, mas são as coisas mais próximas que vem na minha mente.

Do riff crú de Jumpin' Jack Flash ou ao ver a chuva começar justamente quando Mick Jagger canta a primeira estrofe de Gimme Shelter, aquela que fala sobre uma tempestade chegando, você não acredita que está ali vendo uma boa parte da história do blues e do rock' n' roll na sua frente, tocando todas aquelas canções que quando você tomou aquele porre por conta de alguma gata ou saiu pra uma noitada incrível com os amigos escutou a exaustão. Simplesmente sua mente se teletransporta e a conexão com aqueles caras no palco é automática. É a magia da música em ação.

Keith Richards, Mick Jagger, Ronnie Wood e Charlie Watts não estão lá só pela grana e nem para mostrarem que são mais ligeiros que muitos jovens. Eles sobem ao palco para sentirem o ar, aquela brisa na cara, o sangue fluindo pelas veias, deixando o suor escorrendo por lugares impróprios. Os "velhos" querem sentir a vida pulsando o mais forte possível e dividir isso com o público. Uma lição aprendida com os finados gênios Muddy Waters, B.B. King e Chuck Berry, na estrada até hoje - graças aos Deuses do Rock. É uma energia inexplicável, sabe aqueles ápices de nossa jornada nesse planeta? É isso.

Passado dois dias após o fascinante 27 de fevereiro de 2016, continuo hipnotizado e não acreditando que estive lá, sentindo as lagrimas em meus olhos com o mestre "Keef" sussurrando os versos de Slipping Away, pra mim, o grande momento da noite. Foram 21 anos sonhando em ver esses caras ao vivo e finalmente o dia chegou. Como uma canção do último disco solo de Ronnie Wood, posso dizer sem nenhuma dúvida: Sim, sou um cara de sorte. Vida longa aos Rolling Stones, esses alquimistas contemporâneos que mantém a chama do rock'n' roll viva na alma de cada um de nós. Obrigado por uma noite mágica, mestres, e que as faíscas continuem voando por aí. Até o próximo adeus (ou Bis)! ‪#‎StonesSãoPaulo‬