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terça-feira, 6 de junho de 2017

O homem que queria ser rei

Tom Jones, Priscilla e Elvis Presley

Há quase 60 anos Tom Jones circula por aí, exibindo suas correntes de ouro, seu peito cabeludo e emanando sua poderosa voz. Dizem que nos velhos tempos, Tom tinha um apetite sexual voraz, mesmo sendo casado durante esses quase 60 anos que circula pelos palcos do mundo - sua companheira faleceu no ano passado. Cassandra Peterson, a exuberante Elvira - A rainha das trevas, disse que foi desvirginada por Tom. Mamie Van Doren, uma das primeiras coelhinhas da Playboy e sex-symbol dos anos 50, disse que provavelmente Jones usa meias em suas partes íntimas para dar uma camuflada. Os jornais, na época da morte de Melinda Rose Woodward,a Sra. Tom Jones, adoravam dizer que ele era um homem de muitas mulheres, mas que só amou verdadeiramente uma, mas isso não vem ao caso.


Nos últimos 30 anos Tom Jones reinventou-se. Deu uma nova roupagem a Prince, voltou a suas raízes do blues, participou de um episódio de Os Simpsons e hoje é jurado da versão britânica do The Voice. Na década de 60 o homem foi um sucesso e só por Delilah, a canção mais entoada em pub irlandês após a bebedeira, já tem seu lugar na história da música. Mas isso não bastava para Jones, que sempre teve um sonho: queria ser Elvis Presley. Nos anos 70 os dois chegaram a dividir o palco em Las Vegas e viviam se visitando nos camarins. Há uma cena no documentário Elvis é Assim onde acompanhamos Elvis rindo após receber um telegrama de Tom. Presley era o maior astro de Vegas. Estava acima de Sinatra, Dean Martin, Barbra Streisand ou qualquer outro cantor que se apresentasse no deserto de Nevada. Talvez Tom nunca tenha superado isso, mesmo hoje, sendo Cavaleiro do Império Britânico, um nobre a serviço de sua Majestade. Mesmo virando Sir, Jones continua sendo um servo da Rainha Elizabeth, enquanto Elvis é eternamente o rei de um negócio bem maior do que todo o Reino Unido e a União Europeia juntos - como nos tempos posteriores ao Brexit. Elvis representa uma coisa mais gigantesca até que o Estados Unidos e todo seu poder bélico. Elvis é o rei do Rock’ n’ Roll, o ritmo supremo. Seus discos ainda são os campeões de vendas, sua obra é ainda é o principal catálogos da história da música e seus súditos continuam nascendo dia após dia, sempre alimentando o grande sonho de visitar Graceland, a incrível mansão de Elvis, hoje o segundo museu mais visitado dos EUA, só perdendo para a Casa Branca. Mesmo com uma morte extremamente babaca, Elvis ainda é a principal referência do que é o sonho americano. Tom Jones é do País de Gales e nunca terá todo aquele rhythm and blues sulista que Elvis carregava nas veias, apesar de todo esforço e às vezes se sair muito bem.
Elvis e Priscilla nos anos 70

Uma coisa Tom Jones fez melhor que Elvis: manteve-se vivo. Em 2015 lançou o álbum “Long Lost Suitcase”, cuja a canção de trabalho tem o nome de “Elvis Presley Blues”. Tom também curou suas tristezas da viuvez e arranjou um novo amor: Priscilla Beaulieu Presley, uma jovem garotinha que Elvis encontrou em uma base aérea da Alemanha e a principal administradora de seu espólio. Eu não sei onde Elvis está, mas se ele estiver vivo ainda, deve estar dando tiros em aparelhos de TV LCDs com sua pistola banhada a ouro. Mas ele ainda é o Rei e é isso que importa.

Tom Jones e Priscilla atualmente

quinta-feira, 30 de março de 2017

O deus da encruzilhada


72 anos de genialidade, sobrevivência e superação. Eric Clapton faz aniversário hoje e merece todos os parabéns - mesmo sendo o primeiro EMO da porra toda.



Nesses 72 anos, Crossroads talvez seja o ponto alto de Clapton como guitarrista. Ninguém conseguiu fazer uma versão tão intensa de como a de Eric no Cream. Nem mesmo Robert Johnson, o autor da música, é tão visceral assim. Pura porrada e genialidade. Não é à toa que o cara é conhecido como Deus por aí e Crossroads é o nome do centro de reabilitação e festival promovido por ele!


* Quem quiser conhecer o lindo trabalho que Clapton faz em seu centro de recuperação, com base nos 12 passos do AA, é só entrar aqui. Em sua autobiografia, muito focada em sua luta contra o álcool, Eric fala da ideia, desenvolvimento e propósito do Crossroads, sem dúvida nenhuma, um dos principais orgulhos de sua vida: http://crossroadsantigua.org/

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Deixa sangrar (pra um guitarrista que eu conheço)

Hey, cara solitário,
Eu entendo você.
Pegou sua guitarra,
resolveu seguir a estrada.
Decidiu jogar.
No apartamento no centro,
aquele que você morava,
nada mais tinha graça.
Seu companheiro de quarto se foi.
A mulher que te amou um dia,
resolveu sair da tua vida
e não quer mais voltar.
O que sobra?
Velhos discos de blues,
um riff à lá Bo Diddley
e lágrimas no chão de taco.
É melhor pegar a estrada.
Sem destino, sem medo e sozinho.
Sabe, eu te admiro.
Com seu jeito durão de bom coração,
Surfista velho e solitário,
que chora com músicas de outra geração.
Hoje você tá no Sul, amanhã vai pro mar.
Tentando pescar alguma coisa boa pra vida,
Oh, desregrada vida,
Vida essa que você sempre levou.
Não adianta arrependimentos,
nem a cachaça barata que você é adepto.
As cicatrizes estão no seu corpo
e você tá cansado de dar porrada.
I'll never be your beast of burden
My back is broad but it's a hurting
Você tocou essa canção algumas vezes
e foi pra todas as mulheres que cruzaram teu caminho.
Troca o disco, muda o acorde, se levante, maldito.
O público quer escutar suas notas,
quer chorar te ouvindo.
Vendo você sangrar sobre o palco,
sentindo a harmonia crua da sua guitarra,
E percebendo que tudo é só uma viagem alucinada
até a morte chegar,
Vai, guitarrista solitário,
Pega a guitarra só mais uma vez,
E como os mestres sabiamente disseram,
Deixa sangrar.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Sangue em forma de poesia (ou Um Nobel Para Bob Dylan)

Bob Dylan ganhou um Nobel e, por conta disso, está sendo criticado por muitos. Muitos que, inclusive, tiveram sua vida embalada por canções de Dylan, o homem de voz de gralha, do violão de acordes simples e de letras extraordinárias. Ele pode não ser um autor, como seu contemporâneo Leonard Cohen, mas foi o responsável por misturar a melodia e poética de blues simples compostos por Blind Willie McTell ou Blind Lemon Jefferson a raivosa e genial veia manifestante de Woody Guthrie. A canção popular mundial deve ser separada “Antes de Dylan” e “Depois de Dylan”, essa é a verdade.  

Não quero menosprezar Saramago, Camus, Hemingway e outros mestres que já venceram o prêmio, mas o alcance da poesia de Dylan foi e é muito superior do que qualquer livro desses caras. Dylan faz música popular e, consequentemente, toca no rádio. Não é necessário ter grana para ouvi-la, muito pelo contrário. É possível escutá-la na fila de um hipermercado ou enquanto o açougueiro corta um pedaço de carne em seu estabelecimento. Não há necessidade de bibliotecas ou livrarias. Até mesmo na guerra, as palavras escritas por Bob Dylan ecoaram – seja nos sonhos de soldados mortos que apenas queriam sobreviver para resgatar a juventude perdida ou na cabeça de militantes que pediam por tempos de paz. 

Bob Dylan sempre esteve à frente do seu tempo, é um gênio além do campo da contracultura e a chave das portas que levam ao descobrimento de uma geração que ajudou transformar o mundo em um lugar menos banal e um pouco mais consciente. O homem que foi muito além dos cafés esfumaçados do Greenwich Village e se tornou a referência do que todo compositor gostaria de ser.  Ainda lá atrás, nos anos 60, ele fez os jovens se interessarem por poesia novamente, seja através das referências em canções ou da própria estrutura de sua escrita.  De Lennon e McCartney, passando por Jagger e Richards, ao cinema de Scorsese, Oliver Stone e Peckinpah e a literatura barata de um poeta de boteco da esquina, sempre haverá a mão de Bob Dylan lá. Se você discorda que ele é um poeta, então leia todas as letras de Blood On Tracks ou Blonde on Blonde. Se aquilo não é poesia, meu amigo, nada mais será. E não esquente a cabeça que um músico e poeta ganhou o Nobel de Literatura. Isso é só um sinal que os tempos estão mudando.

sábado, 23 de julho de 2016

Heavy metal pra caralho

Ficar admirando o pôr do sol como um idiota
Não aquece minha alma.
Muito menos passar dias esperando a conjunção dos planetas
Diante da lua cheia.
Pelo contrário, quando a lua fica muito cheia
Minha noite será tomada pelo azar.
Dias quentes no inverno tem um quê de inferno.
Nos momentos difíceis que passamos na vida,
O dinheiro é o que menos importa.
O que eu quero é um belo par de pernas como cia e alguns cigarros.
Talvez um blues tocando no toca-discos do quarto
Não me faria mal também.
Uma bebida boa para dar uns tragos.
Na vida, há poucas certezas.
Dos mistérios que desvendei na minha caminhada,
Algumas coisas são sagradas.
Dentre elas, posso afirmar sem medo algum:
Mais do que qualquer disco do Iron Maiden,
Ou música do Black Sabbath,
Liberdade, poesia, cerveja gelada e uma boa trepada
São heavy metal pra caralho!

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Lamento do Marginal Bem Sucedido




Baby, enquanto um velho mestre de blues radioativas nas ondas sonoras do carro,
Tome um fósforo e, ao gosto dos anjos, acenda o último cigarro – que aquele bêbado lhe deu.
E blues lamente comigo os tempos cínicos e cruéis para o caubói delicado que você diz que sou eu.
Ah! Você lembra? Naquele tempo, quem não queria tomar o poder e que mãe não tomava comprimidos pra dormir?
“É proibido proibir!”
Ora, ora o poder, humilhação e violência! Vocês querem bacalhau?
Ao vencedor, as batatas, o troféu abacaxi.
E por falar em política, os meninos de rua já sentem na pele, a verdade nua e crua do que nos aconteceu.
Marginal bem sucedido e amante da anarquia, eu não sou renegado sem causa,
Oh, não!
E uma dose de amor - esse artigo sempre em falta - cairia muito bem em mim
- Melhor que a droga do gim
Lançado em meu cartaz de procurado, de vira-lata de mercado, com a pata esmagada por um trem.
Ah, e fique aqui, só entre nós dois, este papo amarelo de dor, que rima com conversa mole de amor.
Você sabe, eu prefiro a inocência do sexo e a graça da paixão - depois do amor, o tédio e a solidão!
Quem diria?
Ontem à noite na cama me senti arrasado com você me chamando  idiota, bandido, um canalha, indecente, transviado, machão!
Ah, enquanto estas senhoras e estes senhores viram o jogo contra nós e põem o mundo a seu favor - que horror!
Conversação de marginais sobre a terra devastada, em meio a nossa guerra civil - Desde Cabral o Brasil é Brasil.
Guardo-lhe, como um presente, o meu modo masculino, raro e fino de trovador eletrônico, ciberneticamente a mil.
Baby, tudo vai dar pé, você sabe e eu também sei qual é o problema.
Mas, pelo sim, pelo não, me dê a sua mão, igual a seu coração,
E, num amasso apertado, um beijo molhado e escandalizado, daqueles de cinema.
Baby, tudo vai dar pé, você sabe e eu também sei qual é o problema.
Mas, pelo sim, pelo não, me de a sua mão, igual a seu coração - All we need is love!
E num amasso apertado, da cor do Pecado, um beijo molhado, daqueles de cinema.

(Poesia e música do grande Belchior, um mestre na maneira de trabalhar com palavras. Tentei transcrever a letra da maneira correta. Na maioria dos sites a transcrição está errada.)

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Passando uma noite com os Stones e vendo que as pedras ainda rolam (e os dados também)

Não é qualquer dia que o Morumbi treme, dando a impressão que o estádio pode desmoronar a qualquer momento. Poucas coisas causam isso. Uma final de Libertadores, um clássico paulista ou talvez quando os Rolling Stones tocam (I Can't Get No) Satisfaction. Essa última alternativa pude comprovar pessoalmente e só de me lembrar, os pelos dos meus dois braços se arrepiam e olha que a música mais conhecida da banda está longe de ser uma das minhas favorita - que são All About You, do disco Emotional Rescue, a sacana Let It Bleed e o mágico mantra You Can't Always Get What You Want. A sensação beirava o primeiro orgasmo, aquele do início da puberdade, ou o primeiro cigarro, mesmo que ele seja um Shelton comprado solto em algum botequim podre de uma esquina de São Paulo. Pode parecer sujo, mas são as coisas mais próximas que vem na minha mente.

Do riff crú de Jumpin' Jack Flash ou ao ver a chuva começar justamente quando Mick Jagger canta a primeira estrofe de Gimme Shelter, aquela que fala sobre uma tempestade chegando, você não acredita que está ali vendo uma boa parte da história do blues e do rock' n' roll na sua frente, tocando todas aquelas canções que quando você tomou aquele porre por conta de alguma gata ou saiu pra uma noitada incrível com os amigos escutou a exaustão. Simplesmente sua mente se teletransporta e a conexão com aqueles caras no palco é automática. É a magia da música em ação.

Keith Richards, Mick Jagger, Ronnie Wood e Charlie Watts não estão lá só pela grana e nem para mostrarem que são mais ligeiros que muitos jovens. Eles sobem ao palco para sentirem o ar, aquela brisa na cara, o sangue fluindo pelas veias, deixando o suor escorrendo por lugares impróprios. Os "velhos" querem sentir a vida pulsando o mais forte possível e dividir isso com o público. Uma lição aprendida com os finados gênios Muddy Waters, B.B. King e Chuck Berry, na estrada até hoje - graças aos Deuses do Rock. É uma energia inexplicável, sabe aqueles ápices de nossa jornada nesse planeta? É isso.

Passado dois dias após o fascinante 27 de fevereiro de 2016, continuo hipnotizado e não acreditando que estive lá, sentindo as lagrimas em meus olhos com o mestre "Keef" sussurrando os versos de Slipping Away, pra mim, o grande momento da noite. Foram 21 anos sonhando em ver esses caras ao vivo e finalmente o dia chegou. Como uma canção do último disco solo de Ronnie Wood, posso dizer sem nenhuma dúvida: Sim, sou um cara de sorte. Vida longa aos Rolling Stones, esses alquimistas contemporâneos que mantém a chama do rock'n' roll viva na alma de cada um de nós. Obrigado por uma noite mágica, mestres, e que as faíscas continuem voando por aí. Até o próximo adeus (ou Bis)! ‪#‎StonesSãoPaulo‬