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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Elvis e eu

O primeiro LP de Elvis, que é também o primeiro disco de rock'n'roll que ganhei na vida
Acho que foi em julho de 1996, numa segunda-feira. Estava assistindo uma entrevista de Eli Corrêa com o famigerado Padre Quevedo em um final de tarde. Naquele dia o Padre demonstrava em seu próprio corpo alguns métodos usados pelos ditos charlatões, inclusive atravessando uma agulha pela pele do seu pescoço. Uma tremenda curiosidade pra um moleque de seis anos. Entre uma demonstração e outra, o intervalo comercial rolou. A locução dizia que naquela noite haveria um “Festival Elvis Presley”, começando com a exibição de O Prisioneiro do Rock. Confesso que aquela imagem em preto e branco na velha televisão de tubo com a imagem granulada, além do som de Jailhouse Rock me hipnotizou. Precisava assistir aquilo. Certa ansiedade tomou conta de mim. Não via a hora de chegar às 22h. Estava na casa dos meus avós, então a liberdade era total, nem precisava ir pra cama cedo. Fiquei ligado na telinha, até que a sessão começou. Vince Everett, o personagem de Elvis, matava um homem a socos logo na primeira cena e ia pra cadeia. Precisava ver aquilo até o final. Não demorou muito e logo as canções escritas por Jerry Leiber e Mike Stoller começaram a rolar. Escutar a voz daquele cara e a guitarra de Scotty Moore foi uma porrada que tomei na cabeça e no coração. Nunca tinha ouvido nada igual. Era simples, verdadeiro, cheio de atitude e melhor do que todas aquelas ondas infantis que rolavam na época. Era rock’n’roll, ou seja, música de verdade. Uma sensação única, como o primeiro orgasmo ou aquele cigarro roubado do maço de alguém que você fuma escondidinho e relaxa o seu corpo todo. Pura mágica. Assisti o filme até o final, inclusive a antológica sequência de Jailhouse Rock. Ali decidi que queria ser igual aquele cara. Acompanhei os filmes que passaram nas semanas seguintes. Louco por Garotas, Com Caipira não se brinca, Viva um pouquinho, ame um pouquinho, Joe é muito vivo e o maravilhoso Elvis Triunfal. Tirando o último citado, hoje acho todos ruins mas sempre acabo assistindo e sou levado aos meus tempos de criança. Criança tomada pelo Rock e pela “Elvismania”.

Naquele mesmo ano, perto do natal, meu pai arrumou um emprego após um difícil período desempregado. Como presente pra família, comprou nosso primeiro rádio com tocador de CD e, curiosamente, me presenteou com aquele antológico disco inicial de Elvis na RCA, o mesmo que tem Blue Suede Shoes, Money Honey, Blue Moon e Tutti Frutti. Dia e noite escutava aquilo e acho que meus vizinhos me detestavam por isso. No mesmo período, descobri uma rádio pirata onde vários sons dos anos 50 eram tocados. O apresentador tinha um acervo fabuloso e descobri que podia ligar e pedir a música que quisesse. Foi através desse programa que conheci Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Johnny Cash e todos aqueles caras fodões que gravaram com Sam Phillips na Sun Records. Em tempos anteriores ao You Tube, era só ligar, pedir a canção e preparar uma fita K7 pra gravar - tenho algumas delas até hoje. Dali em diante, meus heróis deixaram de ser aqueles dos desenhos animados bobos. Eu queria tocar piano como Jerry Lee e fazer os movimentos de karate que o Elvis fazia no palco.

Os anos foram passando, e na escola eu sempre era conhecido como o menino fã do Elvis. Em 2005, um professor muito querido pediu para eu levar todo o material que tinha sobre Elvis. Discos, livros, revistas, CDs. Para minha surpresa, ele anuncia que levará um cover de Elvis na escola. Até hoje alguns amigos me tiram sarro do momento em que fui convidado pra cantar Tutti Frutti com o cara e confesso: me emocionei pra caralho, afinal, nunca poderia ver um show do verdadeiro Elvis (talvez algum dia no céu ou no inferno).

Hoje, 16 de agosto de 2017, é o aniversário da (possível) morte do eterno “Rei”. São 40 anos sem o cara. O dia em que ele deixou o prédio e virou um mito contemporâneo. Sem a música desse cara, não sei os caminhos que a minha vida teria tomado. Talvez teria virado um desses caras que chapam o coco em balada sertaneja ou que acreditam no que o Datena fala na televisão. A música de Elvis Presley foi o trilho para outras descobertas. Uma chave que destravou a minha mente. Sem ela não teria descoberto o rockabilly, o blues, algumas coisas literárias que eu adoro, toda uma cultura pop, além de todo suingue e vigor que o rock’n’roll deixa em nossas vidas. Quem sabe nesta noite fria de agosto Elvis não esteja vivo, cantando em alguma espelunca por aí, fazendo senhorinhas balançar o quadril durante a madrugada e rindo de tolos emocionados como eu. Se tiver, obrigado pelos ensinamentos, Rei. Um dia te vejo em Memphis!


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Anita



Loira, magra, alta, sexy e perigosa. Essa talvez seja uma boa descrição de Anita Pallenberg, um dos grandes ícones da beleza feminina nos anos 60. Italiana de nascença, mas com o sangue germânico fluindo nas veias, Anita participou de toda efervescência cultural daquela época. Era super-modelo antes do termo existir. Estava em Roma quando Federico Fellini filmou "A Doce Vida". Se tornou amiga de Pier Paolo Pasolini. Atuou no cult "Barbarella" e foi uma das frequentadoras assíduas da Factory de Andy Warhol. Era uma intensa conhecedora de artes. Se não bastasse isso, ela é uma das principais musas do Rock'n'Roll. Anita foi namorada de Brian Jones, o fundador dos Rolling Stones, e a primeira esposa de Keith Richards - sujeito que dispensa apresentações. 

Brian Jones tinha fama de ser um escroto com mulheres. Engravidou várias, abandonou os filhos e gostava de dar porrada nas parceiras. Isso não deu certo com Anita. Segundo Keith Richards, que presenciou algumas tentativas de agressão, ela não deixava barato. Metia o braço sem dó em Jones, que sempre aparecia com um olho roxo por aí. A relação foi desgastando e Brian cada vez mais se isolava nas drogas - ele se achava um gênio. O amigo Keith foi tentar salvar seu parceiro de banda, viu que não tinha jeito e se apaixonou pela mulher do cara, que correspondia na mesma medida. Brian logo apareceria morto em uma piscina, já Anita e Keith resolveram embarcar numa das mais loucas viagens de amor e heroína da história. 

Foi ela que inspirou Richards a escrever os primeiros versos de Gimme Shelter, talvez o maior clássico dos Stones após Satisfaction. Keith estava em seu apartamento, puto da vida e com a certeza que Mick Jagger tentava seduzir a sua mulher. Eles estavam filmando "Performance", um filme esquecível de 1969, num total clima de loucura, tensão e lisergia. O diretor Donald Cammell forçava uma atmosfera sexual entre Jagger e Anita, enquanto Keith pensava em diversas hipóteses. Foi aí que surgiu a frase “ Uma tempestade se aproxima ameaçando minha própria vida hoje”. O resto, incluindo o possível affair entre Pallenberg e Mick, virou história e até mesmo uma briga recente. Em sua autobiografia, Keith fala que Jagger pode até ter dormido com sua ex, mas como tem um pintinho pequeno, não caiu nas graças da fervorosa Anita. Tal descrição íntima rendeu um pedido de desculpas na imprensa por parte de Keith.

Anita teve três filhos com Richards, inclusive uma menina que faleceu 10 semanas após o parto. Durante e depois do casamento, foi se afundando cada vez mais na heroína. Em 77 um namorado de 17 anos se matou em sua cama. Nos anos 80 foi para clínicas de reabilitação. Na década de 90 foi estudar moda. Mas a heroína, muito além dos dentes, cobrou seu preço. Além de várias recaídas, diversos problemas no quadril forçaram o uso de uma bengala. A Hepatite C também fez parte do dia a dia, assim como o AA. Hoje Anita se foi. A bateria do seu relógio acabou. O mundo não só perdeu um de seus grandes ícones fashions, perdeu uma mulher forte, que chutou várias portas contra a caretice. Anita era a musa mais selvagem da história do Rock'n'Roll e sempre será, como uma tempestade vindo ameaçar a vida de alguém.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O deus da encruzilhada


72 anos de genialidade, sobrevivência e superação. Eric Clapton faz aniversário hoje e merece todos os parabéns - mesmo sendo o primeiro EMO da porra toda.



Nesses 72 anos, Crossroads talvez seja o ponto alto de Clapton como guitarrista. Ninguém conseguiu fazer uma versão tão intensa de como a de Eric no Cream. Nem mesmo Robert Johnson, o autor da música, é tão visceral assim. Pura porrada e genialidade. Não é à toa que o cara é conhecido como Deus por aí e Crossroads é o nome do centro de reabilitação e festival promovido por ele!


* Quem quiser conhecer o lindo trabalho que Clapton faz em seu centro de recuperação, com base nos 12 passos do AA, é só entrar aqui. Em sua autobiografia, muito focada em sua luta contra o álcool, Eric fala da ideia, desenvolvimento e propósito do Crossroads, sem dúvida nenhuma, um dos principais orgulhos de sua vida: http://crossroadsantigua.org/

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Domingo

Você desce do seu carro de uma forma tão cool
Tipo o Lou Reed com camisa preta e óculos escuros
tocando um rock básico, direto e intenso.
Suas pernas, longas por sinal, se mexem de forma tão incrível.
Na real, as ruas da cidade ficam pequenas pra você.
Talvez seja o jeito que você mexe a bunda enquanto anda.
Garota durona, mulher difícil, deusa dos sonhos juvenis.
Talvez Robert Crumb tenha te desenhado em algum quadrinho sujo.
Não poupe suas palavras e diga o que quiser; bobagens, de preferência
Componha um rock’n’roll, uma canção de amor, mas esqueça do final feliz.
Tô cansado desses caras que sempre falam do amor e da dor.
E você tá tão sexy, que nem precisa perder tempo com isso.
Tome algum drink, um gim e dance.
Dance até cansar, até o seu corpo ficar realmente solto.
Não se preocupe com o futuro, só pense no princípio.
“Princípio do quê?”, você deve estar se perguntando.
Tomara que seja do prazer, do êxtase e do ardor
Essa noite quero provar do teu ópio e me alucinar.
Talvez isso ocorra enquanto um coral de bêbados canta uma canção de ninar.
Mas, fingindo que mudo de assunto,
Há um jazz que toca dentro de mim enquanto você me agarra e ri.
Uma maldade cheia de charme, minha menina sacana.
Mas agora já vai chegando a hora de partir, já clareou lá fora.
Os pássaros nos observam através das frestas da persiana.
Temos que esvaziar o quarto, começar outra semana.
Mas, por mim,  todos os dias poderiam ser intensos, deveriam ser quentes.
Quentes como são todos os  meus domingos com você.
Que prazer!