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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

YOU

Queria falar de amor,
Escrever uma canção,
Acertar o tom,
Tirar o acorde certo.
Ser simples, (in) discreto,
Direto, tentando um papo reto.
Pego uma nota, brinco com ela,
Puxo a inspiração de um canto,
Mas nada acontece.
Fico pensando, parado,
Feito um babaca,
E a inspiração não floresce.
Manjo um pouco de inglês,
Tento ser um poeta de Latinoamérica,
Nem um verso aparece.
Dedilho o violão, tiro alguns sons,
Não consigo.
Nesse momento, penso em George Harrison,
Em alguma paixão e no seu corpo nu.
Lembro da crueza da sua alma,
Das ancas e andanças.
E invento uma canção pra tu.
Baby, it’s for you,
Just you...

Por hoje basta

Sente-se e tome alguma bebida.
Sei o quanto é difícil ficar a vontade,
E o meu papo até parece música,
Música de má qualidade, é claro!
Tente relaxar, de verdade.
Esquece o calor que tá lá fora
E de todos sonhos perdidos outrora.
Daquela gente com coração frio,
Querendo sucesso a qualquer preço,
Sem se importar em amar.
Almas nem tão vazias,
Mas tristes, perdidas,
Sem nenhuma luz pra brilhar.
Encoste o seu corpo com o meu.
Pele com pele, é bem melhor assim.
Fica tudo mais fácil.
Deixa eu beber esse suor repleto de medo.
Com gosto da dúvida e certo receio ao se entregar.
Entendo que seu coração já foi machucado,
Tá calejado, empedrado, enquadrado.
Guardado em alguma gaveta vazia atrás do armário.
Me sinto assim também, mas só de vez em quando.
Aí fico no canto, refletindo e pensando.
Tentando me encontrar.
Mas já tô perdido, milhas e milhas longe 
Do meu real destino.
Então, o que me resta,
É sentir você sem pressa,
Esquecer do meu relógio velho, 
Que fica pendurado na cozinha,
Sentir seu cheiro felino,
E te fazer minha,
Só minha.
E isso, por hoje,  basta.

sábado, 8 de outubro de 2016

Papel sulfite

Muitas vezes, uma garrafa de cerveja,
um copo americano, uma caneta
e alguma folha de papel vazia
são as melhores companhias de um homem.
Um toca discos ajuda também,
mas sempre há um risco.
O risco das canções que velhos discos trazem de volta.
Canções bregas, românticas, rock'n' roll ou serestas.
Todas elas trazem lembranças ou, quem sabe,
alguma inspiração nova.
Memórias de festas,
talvez o Sol de uma nova manhã.
E na cabeça do poeta,
Uma confusão acontece.
Na verdade, é quase uma guerra.
Palavras surgem para cobrirem
a folha branca de papel com emoções.
Talvez Dionísio tenha haver com isso,
mas o álcool flui nas veias.
O coração surge através de uma prosa
repleta de besteira.
Velhas paixões se transforma num rabisco
feito pela caneta.
Frustrações se transforma em dores agonizantes,
por mais que sejam patéticas.
Amores se transformam em um filme repleto de frases
e garranchos, sem dúvida alguma, via a veia poética.
E no final de toda essa aventura,
vivida através de bebida e música,
a poesia aparece, mesmo sem sentido ou crua.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Iodo



Eu precisei de você,  sabia que corria o perigo
de perder o que costumava achar que era meu
Você  me deixou  te amar até que eu  fracassasse
Você me   deixou  te amar até que eu  fracassasse -
Tua beleza na minha ferida como iodo

Perguntei-lhe se um homem pode ser perdoado
E ainda que eu tenha fracassado no amor, isso foi um crime?
Você disse, Não se preocupe, não se preocupe, querido
Você disse, Não se preocupe,  não se preocupe, querido
Há muitas formas de  um homem servir ao seu tempo

Você tomou conta do lugar que não pude controlar
Não era escuro o suficiente para fechar meus olhos
Então, eu estava com você, ó doce compaixão
Sim, eu estava com você, ó doce compaixão
Compaixão com a picada de iodo

Seus beijos santos exalavam iodo
Sua fragrância tinha emanações de iodo
E se compadeceu na sala como iodo

Seus dedos noviços queimavam como iodo.
E toda a minha luxúria desenfreada era iodo
Minha falsa crença era iodo.
E em todo canto a chama de iodo. 

(traduzido por Gabriel Caetano)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Afastando-me lentamente, me sentindo tão santo, só Deus sabe, estava me sentindo vivo – Quando todas as canções de Tom Waits me fazem lembrar de você

O velho gato vira-lata Tom Waits


Era inverno, na maioria das vezes nem tão frio assim. Te convidei pra algum passeio e você topou. Desde a primeira vez que nos cruzamos houve uma sensação forte de ambas as partes.  Vou confessar pra ti, minhas pernas balançaram desde aquela vez. Mas voltando ao nosso primeiro encontro, não demorei pra encontrar o momento certo pra te encaixar em um beijo. E toda vez que nós encostamos os nossos lábios, até hoje, “Little Trip To Heaven” vem em minha mente. É assim que me senti a na primeira vez e é exatamente desse jeito que continuo me sentindo cada vez que te dou um beijo, uma pequena viagem ao paraíso. As conversas continuaram, a intensidade só aumentava, nossos encontros também e aí veio "I Hope That I Don't Fall in Love with You", afinal, sempre me senti como o gato vira lata descrito na música e além disso, igual ao verso final e, quando fui ver, já estava apaixonado por você. Nos divertimos a beça, temos que assumir, rimos muito e fizemos coisas bastante estupidas e diferentes. Toda vez que lembrava de você,  "Jersey Girl" vinha na minha cabeça. Você mora em uma cidade estranha, grande, perto de São Paulo e toda vez que eu ia te ver tinha a sensação de estar cruzando a cidade e você sabe, só pra te ver. Aí veio a primeira crise e, bem, "Blind Love" não saia da minha  vitrola. Resolvemos nossa situação até que rápido, mas eu me sentia como o James “Caído”, afinal, continuava apaixonado por uma “Gun Street Girl”.  Outras crises, mais algumas voltas se sucederam, e eu me dividia entre “Ol’ 55 e “Hang Down Your Head”, principalmente nos meus momentos de raiva, quase sempre intensos. Continuamos assim até agora, mas espero que não seja obrigado a pegar meus sapatos velhos e tocar “Old Shoes” por aí e acho que isso não vai acontecer, porque no fim, ambos sabemos que você é ruim como eu, da mesma forma que Tom Waits disse em uma canção

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DISCOS INESQUECÍVEIS (E QUASE DESCONHECIDOS)

Del Shannon - Rock On







As vezes parece que os caras sabem que irão morrer e realizam o seu melhor trabalho em seus discos derradeiros. Acho que no caso do Del Shannon ele sabia, pois pouco depois do fim das gravações de "Rock On", ele resolveu meter uma bala de 22 na cabeça, isso em fevereiro de 1990. Uma pena, talvez estivesse prestes a ressurgir das cinzas e voltar a ter certo sucesso, pois este, sem dúvida alguma é seu melhor trabalho e foi lançado postumamente em outubro de 1991. Produzido por Jeff Lynne e contando com a participação de Tom Petty, este disco é um dos melhores do início dos anos 90, com um Del maduro e com a voz mais forte do que nunca.

A primeira música, "Walk Away" é uma grande balada, como "Runaway", sucesso de Shannon nos anos 60, é o tipo de música que você se apaixona de primeira por conta do arranjo magnífico e dos backing-vocals feitos por Lynne e Petty soarem muito bem.

Em "Who left Who", sentimos amargura do velho coração de Del e até entendemos o porquê de ter tomado uma atitude tão drástica. "Are You Lovin' Me Too" nos lembra um pouco as canções de Roy Orbison. O curioso é que Del estava cotado para substituí-lo no "Traveling Wilburys", mas infelizmente não deu tempo para ouvi-lo juntamente de Harrison e Dylan.

"Callin' Out My Name" é mais uma paulada de tristeza e romantismo de primeiro, uma das minhas preferidas, com uma letra sobre um homem que não pode ficar com a mulher que ama e como ele diz em um trecho da música, por ela fazer mal ao coração dele. Logo em seguida vem a minha favorita de todo o álbum, "I Go to Pieces", uma atualização de um sucesso escrito e gravado por Shannon em 1965. Mas com o seu coração magoado, esta versão ficou melhor, mais dramática e com uma atmosfera única, apesar de nos remeter diretamente aos anos 60.

“Lost in a Memory" não acrescenta nada ao álbum, sendo uma das mais fracas.
"I Got You" diferente da tristeza das outras canções traz um sopro de felicidade e tem um lindo arranjo que lembra um pouco o trabalho dos "Wilburys", apesar de ser uma canção apenas de Del. "What Kind of Fool 

Do You Think I Am? " possui um grande contraste  pois é uma balada tristonha mas com um arranjo totalmente para cima e um grande solo de guitarra, talvez o melhor de todo o álbum.

Em "When I Had You " eu já vou logo avisando, se você é ou for virar fã de Shannon, cuidado, pois a primeira estrofes da música parece ser profética.Para encerrar o disco, há o country "Let's Dance”, a mais fraca das 10 canções do álbum.

Na edição em CD temos cinco músicas bônus, o grande Rock' n' Roll com certa pitada de blues "Hot Love", um country de respeito, que nos leva há algum ponto remoto do Monument Valley, a locação favorita do diretor John Ford mostrada em  clássicos como “Rastros de Ódio” ou “Nos Tempos das Diligências”. O disco segue com a grande letra de "Nobody's Business", que apesar de ótima, soa um pouco chata no refrão.

"You Don't Know What You've Got (Until You Lose It) " é mais uma grande balada de Del e parece ser o encerramento perfeito do disco, mas para somos surpreendidos com  a  pedrada "Songwriter", uma demo emocionante, que prova que Shannon  é um dos melhores compositores de baladas em todos os tempos. Nada mais justo para o cara que escreveu "Runaway", uma das músicas eternas da era de ouro do Rock' n' Roll.

(Ficou curioso em conhecer este disco? Escute ele online clicando aqui)