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sábado, 24 de junho de 2017

Desenganos e uma pergunta no ar

De cima do Elevado, trocando olhares
Andando lentamente, imaginando outros ares.
No frio d’alma, no calor de certos mares
Em outras camas, diversos lares
Estamos de volta a jogada, baby
Preparando a próxima bola que irá até a caçapa.

Diante do peso que temos em nossos ombros
Ou de todas as mágoas que cravam o nosso peito,
Voltamos ao velho labirinto, onde não conta o prazer,
Mas sim o respeito.

E nas estrelas diante de nós,
Numa busca incessante por paz,
Estamos aqui, no mesmo espaço,
Tentando nos encarar,
Ensaiando um novo paço.

Seus vizinhos te chamam de linda,
Mas você é mais que isso.
Quer ser reconhecida por outros caminhos,
Por outras vidas, algum novo destino.


E a terra roxa treme, como um peão prestes a parar de girar.
Surge algo no espaço, uma cor nova irá brilhar.
Mas dentro de mim tenho apenas uma pergunta:
Será que vamos nos encontrar?

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Fragmentos

Eu não quero um amor pra vida inteira.
Procuro apenas algo que preencha minha cama,
Minha alma, mas por uma noite.
Dono de uma vida tão fragmentada - apesar das poucas horas de sono.
Nunca vou estar satisfeito, essa é a verdade.
E às vezes dói - foda-se.
Eu vejo os olhares na rua e sinto algumas das fragrâncias.
Destruição e trevas nas avenidas.
E minha vida vai passando, em fragmentos.
Outra noite, outra cerveja - por favor.
Nada de carência - não perco tempo com isso.
Só quero saber se sua risada foi verdadeira.
Em um vagão qualquer do metrô,
Sei que vou sentir seu fogo - talvez até me queime.
Sinto a respiração ofegante que vem do meu lado.
É um cara sofrendo por um caso de amor mal acabado.
Sou um cara de sorte - é o que penso quando vejo ele abalado.
Nas escadas, encaro os rostos - sempre estou pronto pra alguma briga.
Mas, na verdade, sempre estou preparado mesmo é pra uma boa trepada.
No salão, entre a fumaça, reparo nos reflexos dos copos.
Todo o riso falso que o lugar exala aparece lá.
Corpos solitários buscando fugir daquilo que acham que é solidão.
Olhares tristes em um beijo sem tesão ao lado do extintor.
Na mesa de sinuca, uma garota de shorts dá sua melhor tacada.
Olha pro seu oponente, suspirando por uma noite fugaz.
Ele só se importa com o jogo - é um tremendo babaca.
Num canto discutem política e um filme de Paul Newman.
O cara quer impressionar uma garota, mas ele não sabe de nada.
Vejo olhos verdes perdidos em um lugar qualquer no canto do bar.
Vou até lá - sempre há uma oportunidade de ganhar.
Demonstro meu interesse com um sorriso no canto da cara.
Ela retribui com uma cruzada de pernas - e que pernas.
pegamos um táxi e fugimos do lugar.
Outro apartamento, outro quarto, mais uma noite.
Mas ela é tão linda quando está deitada.
Procuramos um carinho real - e ambos retribuímos. 
A noite vai passando e discutimos sobre o mundo desleal em que vivemos.
Ela ascende um cigarro e o coloca em sua boca vermelha.
Por um momento é mais profundo que apenas sexo - eu realmente sinto sua alma.
Levantamos, tomamos um copo d’água. 
E logo os raios solares surgem nos buracos da persiana.
E, novamente, como em todos os outros dias,
Voltamos para as nossas vidas fragmentadas.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Quando o jogo é bem jogado, a tacada pode ser certeira

O cartaz do filme, que segundo a Cinemateca Brasileira, é de autoria  do diretor teatral Elias Andreato

O feltro de uma mesa de sinuca. Um pano verde onde sonhos são expostos e a malandragem muitas vezes é exposta ao seu ápice. Dependendo da sorte e do seu talento no taco, você até pode se dar bem. Mas se o azar te pegar, suas chances são mínimas e tudo pode ser perdido. E é mais ou menos sobre isso que 'O Jogo da Vida', filme dirigido em 1977 por Maurice Capovilla e baseado em um conto do livro de mesmo nome, 'Malagueta, Perus e Bacanaço', de João Antônio, ganhador do Prêmio Jabuti de Revelação e Melhor Livro de Contos em 1963, trata. Um filme que talvez não seja tão conhecido, mas que é um dos retratos mais humanos de nosso cinema.

Em 'O Jogo da Vida', acompanhamos uma noite na vida de três malandros do subúrbio de São Paulo - Malagueta (Lima Duarte), um faminto apostador, batedor de carteiras e morador de alguma favela paulistana, Perus (Gianfrancesco Guarnieri), ex-funcionário de uma fábrica de cimento que decide ganhar a vida por meio do seu talento como jogador, e de Bacanaço (Maurício do Valle), um sujeito metido a malandro, mas que se deu mal em seus outros golpes - e sua procura por vítimas, possíveis perdedores, pelos salões de sinuca mais barras-pesadas.  Por meio de flash-backs vamos descobrindo quem são esses três homens e o porquê de o destino tê-los levado a esse estilo de vida, em que se ganha e perde com muita facilidade.
Uma das edições do livro com capa baseada no filme.

O trio de atores que dão vida a esses anti-heróis paulistanos realizam um trabalho magnífico, obtendo verdade e sensibilidade de maneira certa, sem nunca exagerarem no tom. Lima Duarte, em um papel destinado a Grande Otelo, está chapliniano, Guarnieri é a realidade, o equilíbrio entre os três e Maurício do Valle, um dos símbolos do Cinema Novo, dá seu toque de leveza ao mais obscuro dos personagens principais. O elenco de coadjuvantes se dá ao luxo de ter Joffre Soares como um dos otários que o grupo engana, Antônio Petrin como um malandro que cobra um tipo de pedágio entre os jogadores, Maria Alves como namorada de Bacanaço. A baiana Martha Overbeck Bastos é a irmã de Perus e Myrian Muniz é a companheira de Malagueta, uma figura muito ímpar e mais um dos pontos positivos de 'O Jogo da Vida'.  Por esse papel, Myrian recebeu o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado de 1978. 'O Jogo da Vida' ainda tem participações especiais de grande jogadores de bilhar da época, como o lendário Carne Frita e Joaquinzinho, o pato da cena final .


Maurice Capovilla já planejava levar o conto para as telas de cinema desde os anos 60, e juntamente com Gianfrancesco Guarnieri escreveu os diálogos, enquanto João Antônio fez uma revisão final. O roteiro, que é inteligentíssimo, se torna ainda melhor através da improvisação do elenco. Capovilla não erra a mão como diretor, colocando-se como mais um espectador da vida desses personagens. Em nenhum momento ele julga ou politiza os personagens. Também não “glamouriza” e nem torna a miséria um espetáculo, mostrando que é possível viver dessa forma marginal. Dib Lufti, hoje afastado do cinema por conta do Mal de Alzheimer, é primoroso com a fotografia, que é na minha opinião, uma das melhores, senão a melhor, do cinema brasileiro, tirando proveito dos neons da já tão depravada Rua Augusta e dos bares da Zona Oeste paulistana. É incrível como em momentos em que a luz é mais escura, como em alguns salões de sinuca, sua fotografia nos transporta para aquele ambiente, dando a sensação de que estamos dentro do filme, observando sob o mesmo ponto de vista que Malagueta, Perus e Bacanaço. Outra coisa bastante agradável em 'O Jogo da Vida' é a música do Maestro Radamés Gnatalli e as duas músicas de Aldir Blanc e João Bosco, 'O Jogador' e 'Tabelas', que realizam um casamento perfeito entre a trilha sonora e a imagem. Segundo Maurice Capovilla em sua autobiografia 'A Imagem Crítica', escrita com base em depoimentos ao crítico Carlos Alberto Mattos, as duas canções foram compostas antes que a dupla assistisse ao filme, durante várias partidas (e algumas cervejas) disputadas entre ele, João Antônio, Aldir Blanc e João Bosco em uma sinuca do Rio de Janeiro.

Capa do compacto que contém as duas músicas  do filme.


Se o cinema americano tem 'Desafio à Corrupção' como o filme definitivo sobre bilhar e sinuca, não ficamos devendo em nada, porque 'O Jogo da Vida' é um filme sublime, lírico, uma verdadeira poesia cinematográfica, que nos emociona e que 36 anos depois, continua atual, pois nesses últimos tempos, apesar de certos avanços em algumas áreas, a pobreza, as favelas, o desemprego e outros problemas urbanos só se multiplicaram e continuam deixando grande parte da população à margem de uma vida digna, ou seja, é cada vez mais difícil conseguir dar a tacada certeira.