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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Enquanto você dorme

Vejo a tatuagem da suas costas.
Você dorme e, enquanto sonha, observo a suas marcas.
Foi uma noite mágica, apesar de pequenas mentiras.
De ambas as partes, que fique claro.
Estar dentro do seu corpo deveria ser um crime inafiançável.
Preciso de um bom advogado pra me libertar disso.
Talvez o Sr. Jack Daniel’s seja o homem perfeito para o serviço.
Encosto meus dedos levemente em você - não quero te acordar.
Sinto sua respiração enquanto seco o meu suor.
Filmo os seus seios com a minha pupila descarada.
Com a câmera na mão, fingindo ser Dib Lufti, 
Faço do seu corpo Cinema Novo.
Dou um close-up no seu rio de prazer.
Quero descobrir em qual  oceano ele vai desaguar.
Seus pés relaxam.
Suas pernas ficam dobradas de maneira suave.
E, sem eu perceber, você acorda.
Um sorriso frouxo nos lábios.
A preguiça e o prazer estampados na cara.
Acho que é a hora da próxima rodada.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Quando o jogo é bem jogado, a tacada pode ser certeira

O cartaz do filme, que segundo a Cinemateca Brasileira, é de autoria  do diretor teatral Elias Andreato

O feltro de uma mesa de sinuca. Um pano verde onde sonhos são expostos e a malandragem muitas vezes é exposta ao seu ápice. Dependendo da sorte e do seu talento no taco, você até pode se dar bem. Mas se o azar te pegar, suas chances são mínimas e tudo pode ser perdido. E é mais ou menos sobre isso que 'O Jogo da Vida', filme dirigido em 1977 por Maurice Capovilla e baseado em um conto do livro de mesmo nome, 'Malagueta, Perus e Bacanaço', de João Antônio, ganhador do Prêmio Jabuti de Revelação e Melhor Livro de Contos em 1963, trata. Um filme que talvez não seja tão conhecido, mas que é um dos retratos mais humanos de nosso cinema.

Em 'O Jogo da Vida', acompanhamos uma noite na vida de três malandros do subúrbio de São Paulo - Malagueta (Lima Duarte), um faminto apostador, batedor de carteiras e morador de alguma favela paulistana, Perus (Gianfrancesco Guarnieri), ex-funcionário de uma fábrica de cimento que decide ganhar a vida por meio do seu talento como jogador, e de Bacanaço (Maurício do Valle), um sujeito metido a malandro, mas que se deu mal em seus outros golpes - e sua procura por vítimas, possíveis perdedores, pelos salões de sinuca mais barras-pesadas.  Por meio de flash-backs vamos descobrindo quem são esses três homens e o porquê de o destino tê-los levado a esse estilo de vida, em que se ganha e perde com muita facilidade.
Uma das edições do livro com capa baseada no filme.

O trio de atores que dão vida a esses anti-heróis paulistanos realizam um trabalho magnífico, obtendo verdade e sensibilidade de maneira certa, sem nunca exagerarem no tom. Lima Duarte, em um papel destinado a Grande Otelo, está chapliniano, Guarnieri é a realidade, o equilíbrio entre os três e Maurício do Valle, um dos símbolos do Cinema Novo, dá seu toque de leveza ao mais obscuro dos personagens principais. O elenco de coadjuvantes se dá ao luxo de ter Joffre Soares como um dos otários que o grupo engana, Antônio Petrin como um malandro que cobra um tipo de pedágio entre os jogadores, Maria Alves como namorada de Bacanaço. A baiana Martha Overbeck Bastos é a irmã de Perus e Myrian Muniz é a companheira de Malagueta, uma figura muito ímpar e mais um dos pontos positivos de 'O Jogo da Vida'.  Por esse papel, Myrian recebeu o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado de 1978. 'O Jogo da Vida' ainda tem participações especiais de grande jogadores de bilhar da época, como o lendário Carne Frita e Joaquinzinho, o pato da cena final .


Maurice Capovilla já planejava levar o conto para as telas de cinema desde os anos 60, e juntamente com Gianfrancesco Guarnieri escreveu os diálogos, enquanto João Antônio fez uma revisão final. O roteiro, que é inteligentíssimo, se torna ainda melhor através da improvisação do elenco. Capovilla não erra a mão como diretor, colocando-se como mais um espectador da vida desses personagens. Em nenhum momento ele julga ou politiza os personagens. Também não “glamouriza” e nem torna a miséria um espetáculo, mostrando que é possível viver dessa forma marginal. Dib Lufti, hoje afastado do cinema por conta do Mal de Alzheimer, é primoroso com a fotografia, que é na minha opinião, uma das melhores, senão a melhor, do cinema brasileiro, tirando proveito dos neons da já tão depravada Rua Augusta e dos bares da Zona Oeste paulistana. É incrível como em momentos em que a luz é mais escura, como em alguns salões de sinuca, sua fotografia nos transporta para aquele ambiente, dando a sensação de que estamos dentro do filme, observando sob o mesmo ponto de vista que Malagueta, Perus e Bacanaço. Outra coisa bastante agradável em 'O Jogo da Vida' é a música do Maestro Radamés Gnatalli e as duas músicas de Aldir Blanc e João Bosco, 'O Jogador' e 'Tabelas', que realizam um casamento perfeito entre a trilha sonora e a imagem. Segundo Maurice Capovilla em sua autobiografia 'A Imagem Crítica', escrita com base em depoimentos ao crítico Carlos Alberto Mattos, as duas canções foram compostas antes que a dupla assistisse ao filme, durante várias partidas (e algumas cervejas) disputadas entre ele, João Antônio, Aldir Blanc e João Bosco em uma sinuca do Rio de Janeiro.

Capa do compacto que contém as duas músicas  do filme.


Se o cinema americano tem 'Desafio à Corrupção' como o filme definitivo sobre bilhar e sinuca, não ficamos devendo em nada, porque 'O Jogo da Vida' é um filme sublime, lírico, uma verdadeira poesia cinematográfica, que nos emociona e que 36 anos depois, continua atual, pois nesses últimos tempos, apesar de certos avanços em algumas áreas, a pobreza, as favelas, o desemprego e outros problemas urbanos só se multiplicaram e continuam deixando grande parte da população à margem de uma vida digna, ou seja, é cada vez mais difícil conseguir dar a tacada certeira.