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terça-feira, 14 de março de 2017

Quem sou

Não sou artista
Não faço arte
Não sou escritor
Muito menos jogador
Não sou pugilista
Sempre fujo de qualquer briga
Não bebo
Só tomo um trago
Não faço amor
Apenas dou uns amassos
Não me apaixono
Apenas tiro proveito dos minutos com você
Não sei fingir, disfarçar a dor
Faço peças, mas não sou ator
Talvez seja o drama de um bom poeta
Ou o suor de algum trabalhador
Não falo francês
Mas sussurro em seu ouvido
Com sotaque latino
Em meu bom português
Danço com o vento
Mas continuo isento
Quando o assunto é política
Falo aquilo que penso
Mas quem eu sou
Me diga, por favor
Se sou a ponte, o caminho, o seu amor
Se sou a água, a onda que bate no teu corpo
Um oceano aberto, mas próximo a um deserto
Onde os sentimentos não dizem nada
Onde o que vale é a palavra falada
Algum olhar, uma piscadela
A dança das bailarinas peladas
Que giram suas pernas cheias de graça
Olhando para os velhos que ficam sentados na praça
Ou os velhos discos do garoto que espera o ônibus
Mas diga logo, tenho pressa
Uma brisa vai passar
Vai me apanhar
E vou desaparecer
Não dá mais, não posso esperar
Me diga o que sou, por favor

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Tese negativa sobre os nossos dias

Atiraram no comitê político de um candidato outro dia.
Deram quatro tiros e se mandaram.
A polícia arrancou o olho de uma menina em um protesto.
“Tudo pela ordem e progresso”, eles dizem.
Num bar, em uma tarde tranquila,
Um homem que matou sua mulher e filha atira pra matar.
Nas docas eles resolveram parar de trabalhar.
Cada dia tá mais agoniante.
Não há nenhuma alegria no ar.
Violência sem  caos vira terror na palavra dos aproveitadores.
Eles são fascistas e estupradores, mas na mídia, são homens de família.
Enquanto isso o mendigo compra crack em uma esquina esquecida.
Mas ele é um problema da guerra contra as drogas e a saúde dele pouco importa.
Vivemos em dias terríveis, dias maldosos,
Em ruas que pegam fogo em plena luz do dia.
O trânsito caótico faturou suas vítimas de hoje.
Mas vão aumentar a velocidade permitida.
Pra eles é melhor viver no caos, o sangue e a agonia.
A guerra gera mais dinheiro que um povo consumista.
Um homem pobre doou seu carro a um pastor hoje.
Ele quer ir pro céu e pra isso é necessário deixar a igreja mais rica.
Na TV o apresentador gera fúria e confusão.
É sempre mais fácil enganar pra faturar mais algum milhão.
Mas em outro canal te vendem a glória do amor.
Que sem ele a vida é banal, um verdadeiro horror.
Mas tudo é uma ilusão e a TV serve pra isso.
Num ônibus, uma velha pedinte diz que ganhou no bingo.
Por dia ela fatura mais do que você no seu trabalho que sempre foi um lixo.
Mas a vida não é justa, nunca foi.
E por mais positivo que você seja, a realidade sempre vai vir cair sobre as nossas cabeças.
E ela será cruel, impiedosa, como a mão que te afaga e depois te dá um tapa.
Reflexo de tempos mesquinhos, mas agora já é tarde.
É melhor sair andando, já que a noite vai ter maldade.