Era uma daquelas tardes quentes de sábado, com solos de guitarra psicodélicos perdidos no ar enquanto o sol saia de cena. Dava pra escutar em lugares longe dali. Era essa a sensação que Pedro sentia em seu peito. Sons de trovão, com uma chuva doce e ácida. Foi assim que o amor se instalou em seu coração. Ele tava perdido, fodido, foi assim que começou. Os olhos dela eram intensos, desafiadores, como Muhammad Ali gingando no ringue, abrindo a guarda, pronto pra encaixar um cruzado ou um gancho certeiro. Mas ele nunca tinha experimentado isso e o gosto não era amargo. Nem o ar que ele roubava enquanto beijava a doce dama por quem tinha se enamorado. O começo de algo, o fim de outra era. Como a dança em um musical esdrúxulo ou uma viagem alucinógena que teve em outros tempos, ele sabia e dizia o seguinte: “não vai durar”. Ela era forte demais pra ele, muito dona de si, realmente livre. Pedro coitado, era muito responsável em seu trabalho de merda e, mesmo detestando, jamais conseguiria ser livre e ter os pés no chão como ela. E Pedro sabia disso. Mas você vai dizer que Pedro não sabia viver o momento e se adiantava o tempo inteiro. Talvez você tenha razão, mas Pedro tinha muito medo de certas emoções, principalmente a falta de razão que uma paixão fulminante leva até um coração. E, bobo que era, Pedro disse não. Que final triste pra uma história que nem começou. Mas Pedro não sabia lidar com certas coisas do coração. Por isso, idiotamente e inocentemente, Pedro disse não. Não se pode falar não pra certos sentimentos que nos despertam a paixão. Mas ela entendeu, seguiu seu caminho e pensou: “ele tem medo da desilusão. Não sabe viver os sentimentos que vivem nas ligações internas de qualquer coração.” Ela estava certa. Pedro não estava pronto, mas um dia vai estar. Quando esse dia chegar, Pedro vai estar livre pra fazer amor e parar de chorar.
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terça-feira, 14 de março de 2017
terça-feira, 21 de junho de 2016
Coisas pra fazer
Muitas coisas pra fazer, coisas que eu nem sei o que são.
Não assisti a todos os filmes de Fellini, Bergman ou Antonioni.
Nem li os livros de Burroughs, Hemingway ou Fante.
Nunca lutei boxe em um ringue por dinheiro.
Muito menos empunhei minha guitarra por promessas de ano novo em janeiro.
Tive medo da psicologia junguiana descobrir que meus sonhos são apenas pó.
Tenho medo que desse pó algum pesadelo surja para encher minha vida de loucura e dor.
Preciso de mais Foucault, Sartre, Nietzsche e Camus em noites de dúvida, sexo ou amor.
Preciso sair da discussão besta partidária e ir as ruas fazer a verdadeira política.
Quero noites quentes de verão em junho, quando o hemisfério sul congela no mais impiedoso inverno e assim, nu, poder experimentar do seu sexo.
Anseio por menos dores de cabeça, mais alegria, menos tristeza, por qualquer beleza.
Se eu pudesse, seria como Leonard Cohen cantou naquela canção e estaria aqui, pra ser seu homem.
Quando a lua cheia aparece, geralmente não tenho ninguém em meus braços e por isso a detesto.
Mas talvez, com tantas coisas ainda pra fazer, como viajar o mundo a pé e sem nenhum centavo, uma hora dessas a lua pode ser caridosa comigo.
Pode me trazer o seu suave perfume, um pequeno pedaço de todo o seu sex-appeal.
E como dois velhos bêbados, a espera de não sei o que, nos cruzaremos a cidade.
Assim vamos descobrir mais coisas novas pra encher nossas vidas de alegria, prazer e felicidade, por mais insonsa que ela seja.
Mas enquanto isso é apenas pó, vou anotando no meu caderno em uma lista idiota tudo o que eu quero fazer e não fiz nem sei por que.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Gigantes do ringue
![]() |
| Desempregado X Mercado de Trabalho - O Duelo de Gigantes |
E ele vai ao ringue outra vez. Já
cansado, mas com muita força, preparado para a próxima porrada. Sua visão já
não é mais a mesma de outrora e seu modo de caminhar já está mais lento, mas mesmo
assim, se sente preparado, sabendo que tem grandes chances de vencer. Com suas
luvas negras e com um calção desbotado, irá enfrentar seu pior adversário, o
mais forte de todos. Ele já foi nocauteado por esse oponente algumas vezes e,
mais do que uma revanche, é a chance de mostrar para si próprio, a capacidade
de garra e talento que tem. O oponente
não treme, nem se intimida, sabe que é pior do que Ali, Mike Tyson, George
Foreman ou Eder Jofre. É um sujeito sanguinário, uma verdadeira máquina, nasceu
para ser campeão e foi criado para isso. Apesar disso, se sente vazio diversas
vezes, mesmo após fumar um de seus charutos cubanos. É chegada a hora do combate, chamado por
muitos de “O Embate dos Séculos”. Mais
uma vez, como faz dia após dia, o Trabalhador Desempregado tenta vencer o
Mercado de Trabalho.
O Trabalhador Desempregado se preparou
da seguinte maneira: prestou vestibular, fez faculdade privada por quatro anos,
ainda deve algumas mensalidades, mas todo dia tenta se aprimorar mais. Lê bastante,
estuda mais um pouco, busca melhorar seu inglês e também quer aprender outros
idiomas. Pega chuva, trem, metrô e ônibus lotado, mas não desiste da sua
tentativa de vencer o, cada vez mais difícil, Mercado de Trabalho. Já o Mercado
de Trabalho se utiliza de uma frase clichê, diz que nasceu pronto e que sempre
está disposto para uma revanche. E não é que o danado está preparado mesmo!
Agora os dois estão no ringue, o
público mantém os olhos fixos no grande palco da humanidade. Todos cantando e
gritando muito. O coro arrepia os verdadeiros gladiadores do Terceiro Milênio.
O juiz já está apostos, dita as regras e realiza o toque das luvas. Começou o
primeiro round. Trabalhador Desempregado estuda o jogo do adversário,
observando principalmente a dança, a maneira suave que o Mercado de Trabalho se
desenvolve pelo tablado. Opa! Um momento de desatenção do Desempregado e um swing de direita de Mercado de Trabalho.
Desempregado cai à lona e nesse momento deve estar pensando nos anos
desperdiçados. Deve se lembrar de quando a família ofereceu a oportunidade de
cursos de especialização e ele não aproveitou, das aulas perdidas na faculdade,
naqueles momentos de pura infantilidade, onde preferiu tomar algumas cervejas e
relaxar, ao invés de se arriscar em uma oportunidade de construir algo singelo,
mas com alicerces seguros. Lembra também que muitas vezes desistiu simplesmente
por desistir, talvez falta de entusiasmo e, por conta disso, mais a
necessidade, foi obrigado a fazer o que não gostava. Mas agora não, ele sabe
que será um crime desistir e antes do juiz iniciar a contagem, como em um filme
de Rocky Balboa, se levanta. Nada vai abalá-lo dessa vez. A luta recomeça.
Trabalhador Desempregado se sente
firme e com todo ar que possui em seu pulmão, vai pra cima do grande campeão e
solta um forte jab de esquerda, agora
um cruzado, mas mesmo assim Mercado de Trabalho não se entrega. Apesar de uma sequência fantástica de golpes,
Trabalhador Desempregado está aparentemente cansado e abre a guarda. Uma ótima
oportunidade para Mercado dar a porrada final. É o que ele faz. Um soco direto
coloca o Desempregado ao chão, mas dessa vez nenhum filme passa na cabeça desse
oponente quase derrotado. A contagem começa: “dez, nove, oito...”, vai dizendo
o arbitro, até que, surpreendentemente, Mercado de Trabalho oferece sua mão
direita e puxa o Trabalhador Desempregado. Os dois se abraçam. Mercado de
Trabalho sussurra as seguinte palavras : “Eu preciso de você, cara. Já ganhei
trilhões, muita grana mesmo, mas sem sua presença, nada disso era possível.
Todos os dias que você pegou chuva, enfrentou o transporte público lotado, eu
estava lá, te observando. Talvez seja por isso que estou mais preparado do que
você e acabei ganhando as outras lutas. E, propositalmente, vire e meche,
colocava você para lutar com adversários menores, até mesmo com seus próprios
demônios. Mas hoje você não desistiu e por isso te ofereci a minha mão. Vi que
se arrependeu dos erros do passado e está tentando começar com força total
agora, mas para eu poder te ajudar, preciso que você mantenha a mesma postura
dessa luta. Tenha força, garra e o foco dessa noite. Eu só posso ser campeão se
você estiver junto. Posso contar contigo?”
Desempregado, com os olhos cheios de
lágrimas, disse que dessa vez o Mercado de Trabalho poderia contar com ele,
pois estava preparado. Mercado riu e conclui sua fala: “Vamos ter muitas brigas
ainda, mas sabendo que você não sairá do trilho, vamos ser sempre campeões.”
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