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domingo, 7 de agosto de 2016

A cidade (eu quero ela, mas ela não me quer)

O clima está excelente.
Talvez a noite prometa algo.
Não sei, mas meu coração tá apertado.
Alguns dias queremos conquistar a cidade.
É esse sentimento que sinto dentro de minha alma.
É esse sentimento que quero expor.
Me perder entre esses muros carregados de mágoa.
Me entreter nos lindos peitos da saudade, do arrependimento.
De todas as merdas que eu já fiz.
Às vezes a cidade te oferece um clima ótimo,
Uma lua especial,
Mas é melhor se entreter sozinho.
É um aviso:
“Mantenha-se longe das máquinas, dos problemas, meu jovem!”
E tudo que penso é mandá-los a puta que os pariu.
Talvez minha mente ou alma seja perturbada (APENAS UMA DAS DUAS)
Às vezes me sinto como Sinatra cantando That’s Life.
Em algum mês eu vou ressurgir, me tornar rei,
Conquistar tudo, mulheres, ouro, seu maldito coração.
Na maior parte do tempo me sinto assim.
É ótimo.
Mas, voltando, quero conquistar a cidade.
Você me orienta?
Me explica como?
O clima tá tão bom.
Mas há uma energia ruim no ar.
Você não sente?
Algo carregado, como uma nuvem repleta de chuva.
Sem orgasmo, sem tesão.
Nem toda tempestade deveria ser assim.
Mas quero conquistar essa imensa cidade.
Ver meu nome nas luzes.
Que porra eu tenho que fazer pra isso?
Minha mãe me acha um gênio!
Será que vou ter que ligar  minha guitarra?
Tocar um hino, como Hendrix?
Eu vejo várias garotas passarem por mim.
Desejo todas.
Desejar é ativo, ser desejado é passivo.
Isso é o que diz um espanhol popular.
Ele tá certo.
Desejo você, desejo todas.
Quero você, sua amiga, sua mãe,
todas nuas na minha cama.
Quero me inspirar por vocês,
Mesmo que isso seja um problema.
Mas quero me perder pela cidade.
Ela não me dá espaço.
Ela é durona comigo.
Quero fazer amor com ela.
Algum tipo de carinho.
Mas ela não deixa.
Essa maldita velha dama.
Quero sentir seu fogo,
Seu cheiro.
Quero descobrir os seus pecados.
Sujos, depravados.
Mas ela não se abre.
Maldita seja.
Me deixe tomar uma cerveja em seus lindos seios,
Oh, seios de uma falsa liberdade.
Eu os desejo.
Minta pra mim, sem verdades essa noite.
Diga-me a verdade apenas após a meia-noite.
Trepe comigo até o próximo anoitecer.
Doce pássaro da juventude.
Doce charme da tarde.
Quero você
Quero sentir seu gosto, descobrir que sabor você tem.
Até eu arranjar uma cidade,
No ano que vem.
Só o ano que vem.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Orgânico e necessário (o que alimenta a vida)

Não são os pontos do futebol que alimentam o meu dia. Primeira, segunda, última colocação, sinceramente, não importam pra mim. O que mata minha fome, de verdade, são o vento, algumas palavras presas ao céu, o sol quente na manhã gelada - pelo menos em um lado da calçada. Ver pessoas sorrindo, apesar do esbarrão pra entrar no trem, ou o velho senhor, já quase sem dentes, vendendo balas de hortelã  pra ganhar algum vintém. O escuro também é bom, repleto do silêncio, oportunidade pra transbordar os pensamentos e os suspiros das nossas almas cansadas. Buscamos leveza, precisamos da leveza, queremos a leveza. Seja dos nossos espíritos nada cristalinos, dos corpos jogados pela cama ou num porre no botequim da esquina, junto com a rapaziada querida. Coisa cotidiana, comum, banal, mas que enche nosso coração com a momentânea alegria. Uma partida de bilhar, só pelo lazer, por algumas risadas. O livro de bolso do autor favorito falando sobre a guerra, pontes ou estradas. Um café puro com coxinha pra escutar a tiração de sarro dos balconistas da padaria - todos, sem exceção, gente fina. Às vezes o muito é desnecessário e basta uma caminhada no parque, através da tentativa de respirar um pouco do que nos resta de oxigênio puro, pra frutificar o coração. Escutar o disco que lembra aquela menina que você conheceu naquele dia onde se sentia tão só. Poder fazer isso durante o maçante trabalho é melhor ainda. Se perder pela cidade, num dia sem hora definida, e poder olhar por outro panorama os arranha-ceús, viadutos, igrejas e jardins. Sentar em uma poltrona larga de cinema, pra sair da sala e refletir na vida após aquele filme meio cabeça. Ligar pro tio, pro vô, pra tia, só pra perguntar ou contar como foi seu dia. Como é boa a sensação de correr pra pegar o último trem, apesar da tristeza de deixar a amada outra vez. Mas logo vem a saudade, uma conversinha no WhatsApp, ou, quem sabe, um telefonema, pra sentir realmente a intimidade. Às horas só são pontos em algum lugar do universo e, pra evitar o tédio, alimente-se o dia inteiro daquilo que você nem sabe o que é. Descubra o novo, explore o que aparecer. Pode e deve errar também. Tudo nos fortalece, basta um pouco de garra, nem precisa ter vontade de vencer. Apenas alimente-se bem, organicamente, com aquilo que lhe convém, e, como diria o velho clichê das ruas, sem fazer mal a ninguém.