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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O ÚLTIMO BAILE (ou ENTRE PASSOS DE BOLEROS E UM FOXTROTE)

 Terça-feira ensolarada e, mesmo com muito calor, consegui dormir bem. Preparo um café no meu pequeno quarto com cozinha. Hoje a tarde tem baile e preciso estar impecável. Me barbeio, aparo o bigode e passo minha roupa. Calça de vinco e sapatos brancos. Uma camisa preta, com algumas estrelas brancas para chamar a atenção na pista. Ainda dou pro gasto. Arrumo os últimos detalhes e mastigo o pão velho e duro que comprei na padaria do picareta de cabelos acaju, o velho Divino, mas, mesmo assim, me sinto ótimo, afinal, ela me esperará com a blusa florida que dei em seu aniversário e o perfume doce que fica impregnado em minhas camisas de seda. Essência de fêmea que domina o meu peito.

Nossa, agora que reparei: já passou da uma e meia e preciso ir ao ponto, são três conduções até o salão. Claro que no caminho há lembranças de outras mulheres, principalmente da minha falecida, mas após três pontes de safena, ver um filho morrer após um acidente, tenho que continuar, viver o presente. Ficar de enlutado, de pijama furado e com um riso triste assistindo os péssimos calouros do Raul Gil numa tarde de sábado não é pra mim, não basta. O sangue ainda pulsa e a ciência desenvolveu o Viagra. Apesar que prefiro o Cialis, é mais seguro. O médico não recomenda por conta do coração, mas prefiro morrer entre os peitos de uma mulher do que em uma cama de hospital rodeado com os poucos amigos que me restam e estão vivos.

Enquanto espero o trem, vejo os jovens, todos cheios de vida. Ah, como era bom. Mais do que bom, era mágico. Era um jovem namorador, que acreditava no amor romântico, daqueles de música do Roberto Carlos. “Eu sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores”. É exatamente isso que ainda sou. Aquele jovem menino que pulava o muro do alambique e ficava embriagado durante a madrugada, para fugir correndo e descalço para a escola. O menino que admirava as curvas das panturrilhas grossas da professora Dete, uma jovenzinha de uns 21 anos, loira, linda, moça recém-formada. Ah, como prestei lindas homenagens a “Dona Dete”. Mas isso é passado e, apesar de feliz, não vale ser revisitado. O presente é o que importa. O cheiro daquela que me espera entrando em minhas narinas, ativando sentidos, trazendo gemidos até minha orelha, um movimento especial, sexy, enquanto ela mexe o quadril. Até parece que ao fundo um violonista flamenco sola ao fundo canções gitanas, daquelas feitas para requebrar. “Mercedita” talvez. Deixa isso pra lá. Fumo um cigarro escondido, já que ela não pode sentir o cheiro. Peço o isqueiro emprestado no meio do caminho, assim o vento vai levando o cheiro embora e não fico responsável por nada. Preciso comprar um presente pra minha rosa e acho que esse cordão dourado dá pro gasto. É apenas uma lembrancinha, só pra animá-la a dançar.

Faz dois anos que conheci ela. Tem 70 anos, é um pouco mais nova que eu, mas já puxou a faca pra mim algumas vezes. Sente um ciúme fodido, diz que sou seu homem, seu “nego”, o amor da vida dela. Não acredito nessas coisas, mas acho que devo aproveitar. Ela tava sentada num canto do salão, meio escondida. Fui lá e com toda minha malandragem, puxei pra dançar. A orquestra tocava um bolero. Acho que era Tortura de Amor. Realmente a noite estava calma, do mesmo jeito que o cantor entoava. Tive outras namoradas, fiquei noivo cinco anos com uma, mas quero sossego e, apesar do ciúmes, essa veio pra ficar. Tem umas donas lá que já me ofereceram casa, cama, diziam que pagavam tudo, mas não precisava e disse não, logo conheci ela. Perdeu tudo faz um tempo. O barraco foi derrubado pela prefeitura e eles não deram nenhum centavo. Dei cama, guarda-roupa e uma tábua de passar. Os armários da cozinha consegui com um amigo, Pago água de coco e guaraná, ela não bebe e eu parei faz tempo também. Viaja comigo sempre. Fomos em um baile em Salto. Ela até deixou uma carta pro vizinho dizendo que qualquer coisa, tava lá. Me acordava com café na cama, beijava, abraçava. Coisa louca, que me deixa cheio de vida, sabe? E dançamos a noite toda. O que a orquestra tocava, estávamos lá. Principalmente se fosse alguma do Ray Conniff.

Mas mil perdões, rapaz. Você vai trabalhar já e chegamos aqui na porta do baile. Preciso entrar, sabe como é, sempre pode ser o último. E não se pode desperdiçar um bom foxtrot, já que a vida é feita de danças, de movimentos contínuos, até mesmo intensos. O importante é manter o ritmo, o “dois pra lá e dois pra cá”, sempre com leveza e alegria, mesmo se errar. Sempre é possível enganar, rapaz. Fazer a dança certa. Mas me dá licença outra vez, o baile vai começar e ela tá me esperando, toda cheirosa, maquiada e hoje quero paz, ternura, como o velho romântico disse em uma canção. Bom trabalho e fica com Deus.

(PARA TODOS AQUELES QUE ESTÃO POR AÍ, PERDIDOS EM ALGUM BAILE DA VIDA)





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A serenata de São Diego

Algumas músicas beiram a perfeição. É o caso de San Diego Serenade, presente em The Heart of Saturday Night, clássico de Tom Waits. Acho que se você ouvir, vai compartilhar do mesmo sentimento que eu sinto. A letra e música abaixo:


Nunca vi a manhã até ficar acordado a noite toda
Nunca vi a luz do sol até você apagar a luz
Nunca vi minha terra natal até ficar longe por muito tempo
Nunca ouvi a melodia até precisar da canção

Nunca vi o meio-fio a até te deixar pra trás
Nunca soube que precisava de você até estar encrencado
Nunca disse "Eu te amo" até te amaldiçoar em vão
Nunca senti o meu coração até quase ficar insano

Nunca vi a costa leste até mudar-me para o oeste
Nunca vi o luar até ele brilhar fora do seus seios
Nunca vi o seu coração até tentarem roubá-lo, roubá-lo de mim
Nunca vi suas lágrimas até escorrerem pelo seu rosto

Nunca vi a manhã até ficar acordado a noite toda
Nunca vi a luz do sol até você apagar a luz
Nunca vi minha cidade natal até ficar longe por muito tempo
Nunca ouvi a melodia até precisar da canção

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O banqueiro

E quando bate o desespero
o que fazer ou quem chamar?
Se o pagamento cai inteiro
e certas contas tem que pagar.
Não adianta sofrer, muito menos chorar.
Você pode beber, sair correndo,
mas uma hora dessas, o tempo vem,
vai te pegar.
E todo sofrimento, que sua alma,
pobre e cansada, vai aguentar.
É de janeiro a janeiro, o dia inteiro,
com o sol comendo,  meio sem jeito,
que a tristeza aparecerá.
E sem dinheiro,  com fome
e faltando  emprego,  o banco vem
te assaltar.
Não adianta sofrer, muito menos chorar.
Você pode beber, sair correndo,
mas o banqueiro, ah, ele vai te cobrar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Jogadas

Descendo a rua da sua casa
Sentindo cada músculo 
das minhas pernas.
Tentando descobrir
qual é o próximo passo.
Não sou que nem você,
que consulta mágicos, índios,
bárbaros e advogados.
Não tenho fé, nem acredito no destino.
Uso o vento como guia,
Deixo o coração dizer qual é o
meu caminho.
E, enquanto desço a sua rua,
tento compreender o nosso encontro.
Um momento de sorte,
repleto de jogos obscuros.
Um encontro de loucos
em uma noite sem fim.
Acabei no seu quarto.
Confesso: tava um trapo.
Mas você me trouxe cerveja,
deu um sorriso tímido,
Tirou a roupa, me deu um abraço.
E, como naquela música do Van Morrison,
Fizemos amor enquanto a lua dançava.
Você dizia coisas com os olhos,
me apertava.
E, passando os dedos sobre sua pele,
o seu cheiro de laranja exalava.
Mas agora, voltando a realidade,
Tô na porta da sua casa.
Basta você abri-la.
Tá na hora da próxima jogada.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Sobre pizzas e um bookmaker chinês



São 20h. Meu estômago ronca e resolvo jantar. Vou até a padaria perto do serviço fazer o ritual dos dias úteis. O garçom vem até a mim com um cardápio, mas hoje é desnecessário. Peço um contrafilé acebolado com fritas, já que na hora do almoço resolvi tirar um cochilo ao invés de comer, e um chá gelado de limão com um copo repleto de gelo e uma rodela do fruto. Fico no aguardo. É o tempo em que observo as mesas ao meu lado. Minha mãe me ensinou que é feio olhar os outros clientes de um restaurante, mas é irresistível – inclusive porque tenho a péssima mania de achar semelhanças entre rostos de populares e famosos. É um negócio difícil de controlar, mas um exercício maravilhoso para a memória.  Observo a mesa no meu lado direito e há um sujeito que é a cara do ator Ariel Coelho, antigo coadjuvante de filmes do Ivan Cardoso, programas do Chico Anysio e novelas da Rede Manchete. Ele já está morto algum tempo, mas o sujeito sorri e penso: “É o cara”. Logo ele vai embora, com sua mulher e filho, mas eu mal podia imaginar o que ocorreria na sequência. 

Adoro os filmes de John Cassavetes, principalmente os que contam com a participação de Ben Gazzara, um dos ícones da geração Actor’s Studio.  Para quem não se lembra dele, ele é o Jackie Treehorn de O Grande Lebowski ou o Marcelo nova-iorquino e durão de Forever, do nosso Walter Hugo Khouri.  Gazzara também interpretou Bukowski no ótimo Crônica de um Amor Louco. Mas o grande filme do cara, pelo menos para mim, é  A Morte de um Bookmaker Chinês, do Cassavetes. Eis que, do nada, uma visão começa a me atordoar. Um homem, justamente a cara do Ben Gazzara entra na padaria acompanhado de duas moças já idosas, mas aparentemente ótimas para a idade. Elas estão vestidas como se voltassem de um baile, enquanto “Gazzara” veste um short dos New York Jets e uma camiseta básica.  Foi como ver uma cena do filme, mas passada 42 anos depois, com todos eles envelhecidos. Faltava uma garota, mas quem já assistiu A Morte de um Bookmaker Chinês irá entender. Eles sentam a mesa, passam os olhos pelo cardápio e, como raramente os clientes dessa padaria que eu vou fazem, pedem uma pizza de oito pedaços. O sabor escolhido, para o meu espanto, é a siciliana. Será que há alguma conexão com a máfia na escolha? Talvez.  Vou comendo o meu jantar e fazendo algo absolutamente errado, que é ficar de gaiato, só ouvindo a conversa dos outros. Eles falam sobre bailes, dança. Começo a achar que ele é realmente Cosmo Vittelli, o dono de um cabaré de Los Angeles interpretado por Ben Gazzara, um lugar onde muitas garotas dançam e tiram a roupa.  Descubro que a dama de cabelo claro é sua namorada e que ela não frequenta o apartamento dele por conta das visitas constantes da filha de Cosmo.  Hoje ele não quis beber e optou por um Guaraná Diet. Conheceu os prazeres da típica fruta tropical de nossa terra. Ele fala para a amiga que o acompanha, uma senhora de uns 70 anos e cabelos negros, do dia que saiu com a namorada para comer yakisoba. Desconfio que ele só esteja camuflando sobre a história que ocorreu com o bookmaker chinês. 

Peço um café e fico observando mais um pouco, mas os últimos minutos da minha hora de janta estão acabando e preciso voltar para o trabalho. Saio da mesa e não resisto, dou a última olhada para aquela cena de John Cassavetes diante dos meus olhos, incluindo o super closes do diretor.  Pago a minha conta e acendo um cigarro com uma única certeza: às vezes é divertido deixar a vida mais estranha que a ficção. Sobre o que aconteceu ao bookmaker chinês? É melhor deixar pra lá.