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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Poesia eletrônica

Já não escrevem mais a mão
Não há sequer, no papel, 
A marca do batom.
É tudo touch screen,
Basta apertar um botão,
Simples assim.
Cartas de amor, 
Que costumavam ser bregas.
Ninguém escreve mais.
Ficam em bate papos infinitos,
Por meio de algum aplicativo,
Sem tempo pra sentir a saudade,
Apenas alguma instantânea felicidade,
Que maldade!
Os amantes, conectados a todo instante,
Não circulam mais pelas praças,
Muito menos sentam em bancos,
Estão sempre online, 
Mas com almas desconectadas.
Até mesmo o clichê das mãos dadas
Naquele velho pálido luar
É uma água passada.
Troca de olhares em um balcão qualquer,
Enquanto a cerveja refresca o corpo suado,
Foram substituídas por um cardápio variado,
Onde a sorte conta um bocado.
Pra encontrar com quem se quer.
Hoje meus versos são digitais,
Minhas palavras universais.
E de alguma parte do mundo, 
Um lugar globalizado e moribundo,
pós-moderno e após a bomba atômica,
Ainda insisto no verso e na prosa
Através da minha poesia eletrônica.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ESTADOS UNIDOS DA AMNÉSIA


Existem graus de amnésia, maneiras de esquecer
Jeitos de lembrar tudo de bom que você fez
E, se você não tem uma testemunha  pra lembrar você mesmo,
Ninguém é perfeitamente bom o tempo todo
E se você matou a todos os peles-vermelhas há muito, muito tempo atrás
Bem, eles  estão todos mortos agora de qualquer maneira, de qualquer maneira
Não deixe esse fantasma desconcertar você – O Senhor proverá
Uma lápide pouco agradável para o Cherokee bravo
Portanto, sem reservas,  nós vamos ter uma limpeza
Abrindo caminho para a terra dos livres
Vamos ouvi-lo na civilização, mais uma vez
Construindo seu império ariano em paz

("The United States Of Amnesia" é uma canção do músico inglês Robert Wyatt feita nos anos 80 que você pode escutar aqui: https://vimeo.com/162364395 )

Trump ou Hillary são o mesmo lado de uma moeda velha, a mesma que perturba nosso caminho subdesenvolvido há vários anos. Se fosse um ou outro, nada mudaria, essa é a verdade. Governos da América Latina continuarão sendo derrubados com a influência de agências americanas, assim como alguns de seus mais banais “líderes” se curvarão aos pés do imperialismo, sendo a única diferença que em pleno Séc. XXI nos tornamos um terceiro mundo high tech. Guerras com o envolvimento dos EUA continuarão existindo, afinal, a indústria bélica precisa faturar.  O conflito  entre Israel e Palestina será financiado pelo Tio Sam por muito mais tempo, isso é garantido, e haverá sangue, muito sangue. Logo a relação entre Putin e Trump irá azedar e vamos estar diante daquela velha sensação de  paranoia sobre uma guerra nuclear. Nada de novo no front, apenas a atualização dos dados e a certeza que cada da vez mais estamos  longe de tempos de paz. 

sábado, 5 de novembro de 2016

Anjo do amor

Eu tô perdido e confuso,
Sozinho num caminho louco,
Não aceita cartão de débito por aqui.
Não sei o que fazer, muito menos sentir,
Queria ser como Van Morrison,
Perfeccionista ao extremo,
Te escrever uma canção,
Ver se o solo de sax tá certo,
Te agarrar, te sentir.
Mas sou um intruso,
Um covarde, que todos os dias,
Todos os dias, queria dar um “olá” pra ti.
Pode parecer bobagem, uma loucura irreal,
Mas, desde que conheci você, te vi,
Tudo que desejo são noites quentes,
Sua cabeleira loira, seu cheiro,
E seu corpo todo, todo pra mim.
Sei que não tô rimando,
Nem tenho inspiração pra tanto,
Mas queria você aqui.
Queria você me afagando a dor,
Fazendo trapézio da minha solidão,
Me amando como sou.
Não sou um infeliz,
Muito menos imbecil,
E, talvez, tô esperando um anjo louro,
Que me traga algum tipo de conforto,
E que, de certa forma, ore por mim
Não vou chorar e sofrer.
Sei que seu caminho é longo,
E eu tô perdido, perdido no meu destino.
Gritando contra a dor, procurando seu amor.
E, do nada,
Você pode surgir aqui pra mim,
Cheia de dúvida e certo rancor,
Com velhos receios,
Quem sabe sem medos,
Pronta para ser, apenas,
Meu eterno anjo do amor.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O Cara Certo

Eu devia estar me afogando em lágrimas,
bebendo tequila barata e confidenciando 
a minha vida ao garçom.
Devia estar com vontade de me esconder,
botar fogo em algum canto, apenas te odiar.
Devia estar com uma dor de cotovelo daquelas,
tentando me jogar de alguma  janela
 ou nadar até um lugar bem distante no mar.
Devia mandar botar seu nome na macumba,
te amaldiçoar, desejar pra ti uma bela corcunda.
ou ver você virar loba ao luar.
Mas não consigo, você sabe que eu não minto.
Tô feliz, alegre por você, pelo mundo,
rido até pro cara de sorte que agora vai te amar.
Fui incapaz, sou grosseiro,
o carrapato no seu travesseiro,
o cavaleiro destinado a te libertar.
Agora você traçou o seu próprio caminho,
abriu as porteiras do seu próprio espaço,
me libertando, deixando eu ser feliz sozinho.
Mas mantendo certo carinho,
que espero não perder
em alguma virada do destino.
Mas, egoísta que sou,
Tomo mais um trago, fumo rapidamente 
e fico observando  alguma garota passar.
Nosso tempo sempre foi outro
e agora, sem receio algum,
com um sorriso cínico na boca
e um cigarro preso nos lábios,
te digo, com certeza,
 que nunca fui o cara certo pra te amar.

Seguindo em frente

Continuar, prosseguir. Por que é tão difícil pra tanta gente seguir em frente? Claro que é confortável manter velhos hábitos e seguir padrões que não levam a caminho algum, mas vale a pena? De que vale manter velhas amarguras dentro do peito se você pode encontrar novos prazeres por essa estrada mal pavimentada que é a vida. Não vou falar que foi fácil para mim, mas seguir em frente, sem olhar as coisas que deixei no meio do caminho, hoje é algo natural, simples, como passar manteiga derretida em um pão francês. É só dar um passo de cada vez, sem pressa alguma. Como o passageiro de um trem viajando para o desconhecido, que resolveu descer em uma estação pacata só para sentir o cheiro do orvalho matinal. Claro que seguir em frente é um exercício doloroso muitas vezes, mas é um processo libertador e a chance de trazer novas cores pra vida. Velhas ideias, gostos e paixões ficam guardadas em armários enferrujados dentro do cérebro e da alma, tudo separado por arquivos. Aquilo que foi bom e acrescentou algo será lembrado. Já os sentimentos ruins, a raiva e o ódio por inimigos inexistentes logo desaparece, nem vale a pena lembrar. Há um incinerador em pleno funcionamento em algum lugar remoto de nossa memória. Seguir em frente é a chance de fazer tudo diferente, de cometer novos erros, mas sempre com a oportunidade de jogar os dados novamente. Regozijar-nos, regozijar-nos, não temos outra opção senão seguir em frente. Ouvi isso em uma canção de tempos turbulentos, nas vozes de sonhadores que apenas queriam um amanhã mais ensolarado e repleto de paz. Talvez hoje eles estejam velhos como seus sonhos, quase mortos e desesperançados, mas sabiam que pra cantar o blues, você tem de viver no tom e seguir o fluxo sempre pra frente. Como eles diziam em inglês, go your way, I'll go mine and carry on.